Enquanto hospitais públicos do Distrito Federal enfrentam um cenário de colapso, com leitos de UTI pediátrica fechados, dívidas milionárias e denúncias recorrentes de falta de atendimento a crianças com doenças graves, a vice-governadora Celina Leão escolheu outro tema para ocupar os holofotes: a promessa de inclusão do medicamento Mounjaro no Sistema Único de Saúde (SUS).
O contraste entre o discurso de campanha e a realidade da rede pública de saúde tem gerado indignação. O Hospital da Criança de Brasília, referência no atendimento oncológico pediátrico, acumula uma dívida estimada em R$ 118 milhões e opera com dezenas de leitos de UTI fechados, segundo informações amplamente divulgadas por entidades médicas e parlamentares da oposição. Em meio a esse cenário, famílias relatam filas, transferências frustradas e atrasos em tratamentos essenciais.
Celina Leão não é uma espectadora desse processo. Como vice-governadora há anos, integra o núcleo central do governo e participa diretamente das decisões administrativas e orçamentárias. Tem, portanto, responsabilidade política sobre a condução da saúde pública no DF. Ainda assim, opta por apresentar como prioridade um medicamento de alto custo, associado principalmente ao emagrecimento e popularizado entre celebridades, enquanto o básico garantir atendimento hospitalar a crianças segue comprometido.
A promessa de oferecer Mounjaro pelo SUS soa moderna, midiática e estrategicamente calculada para gerar engajamento nas redes sociais. Mas, para muitos profissionais da saúde e especialistas em políticas públicas, trata-se de uma cortina de fumaça. O mesmo governo que afirma não ter recursos suficientes para manter UTIs pediátricas abertas ou honrar contratos hospitalares se dispõe a discutir a distribuição de um fármaco que pode custar milhares de reais por paciente ao mês.
A inversão de prioridades é o ponto central da crítica. Em vez de apresentar um plano emergencial para reabrir leitos, quitar dívidas hospitalares e garantir tratamento a crianças com câncer e outras doenças graves, a vice-governadora aposta em uma pauta de forte apelo eleitoral, mas desconectada das urgências mais dramáticas da população.
Para mães e pais que passam noites em corredores de hospitais à espera de uma vaga de UTI, a promessa soa não apenas vazia, mas ofensiva. O discurso de campanha ignora o sofrimento concreto de quem depende exclusivamente do SUS para sobreviver.
Ao apostar em slogans e anúncios de efeito, Celina Leão parece subestimar a memória e a inteligência do eleitorado. A crise da saúde pública no DF não é abstrata nem distante ela tem nomes, rostos e histórias interrompidas. E nenhuma promessa de marketing político é capaz de apagar o peso dessa realidade.
























