A crise financeira enfrentada pelo Banco de Brasília atingiu um nível que já não comporta discursos ambíguos ou bravatas políticas. Ainda assim, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, optou por adotar um tom desafiador em relação ao apoio da União, afirmando que, se o governo federal “não atrapalhar, já ajuda muito”. A declaração, feita em meio a uma das mais graves crises da história da instituição, soa menos como estratégia e mais como descompasso com a realidade.
O BRB enfrenta um rombo estimado em R$ 30 bilhões, resultado de operações financeiras de alto risco, e necessita urgentemente de capitalização para recompor indicadores essenciais como o Índice de Basileia. Trata-se de uma situação que, por sua magnitude, ultrapassa a capacidade de resposta isolada do Governo do Distrito Federal.
Nesse contexto, a fala da governadora revela uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que buscou interlocução direta com o Ministério da Fazenda, representado por Dario Durigan, para discutir alternativas de socorro, Celina Leão minimiza publicamente a importância da União no processo. A postura levanta dúvidas sobre a coerência da estratégia adotada diante da crise.
A realidade é que qualquer solução viável passa, inevitavelmente, por algum nível de articulação com o governo federal. A própria proposta em discussão, que envolve recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e possíveis aquisições de ativos por bancos públicos federais, depende de aval político e institucional de Brasília. Ignorar esse fator, ou tratá-lo com desdém, fragiliza ainda mais a já delicada posição do BRB.
Além disso, o cenário externo não é favorável. A agência de classificação de risco Moody’s já rebaixou a nota do banco, sinalizando preocupação com a capacidade da instituição de honrar seus compromissos. O alerta de risco de calote não é trivial e reforça a urgência de medidas concretas e não de declarações politizadas.
Ao atribuir eventuais dificuldades à relação política com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a governadora desloca o foco de um problema essencialmente técnico e financeiro para o campo ideológico. Essa narrativa, embora conveniente sob o ponto de vista político, pouco contribui para a construção de soluções efetivas.
Em momentos de crise, espera-se liderança com capacidade de articulação, pragmatismo e clareza sobre a dimensão dos desafios. No caso do BRB, a gravidade da situação exige menos retórica e mais alinhamento institucional. A tentativa de minimizar o papel da União, enquanto se depende dela nos bastidores, expõe uma inconsistência que pode custar caro, não apenas ao banco, mas à credibilidade da gestão pública no Distrito Federal.




















