O caso coloca em risco projetos políticos que pareciam definidos
Até o final do ano passado, o cenário político do Distrito Federal era previsível. O governador Ibaneis Rocha, bem avaliado, deixaria o posto para disputar uma das duas vagas no Senado com praticamente 100% de chances de se eleger. No lugar dele, assumiria a vice, Celina Leão, candidata à reeleição em outubro, apoiada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro,favoritíssima à outra vaga no Senado — uma aliança considerada imbatível, que reuniria no mesmo palanque o MDB do governador, o PP da vice e o PL da ex-primeira-dama. O escândalo do Banco Master alterou substancialmente esse roteiro. No sábado 28, o governador renunciou ao cargo, confirmou a disposição de concorrer ao Congresso, mas a situação dele, além de desconfortável, agora é, acima de tudo, incerta.
Alvejado pelas investigações do maior golpe financeiro da história, Ibaneis foi abandonado pelo PL, não é considerado mais favorito absoluto e está sendo pressionado a alterar os próprios planos. O panorama também se complicou para a nova governadora.
Na segunda-feira 30, ao tomar posse no cargo, Celina pediu o afastamento dos executivos do Banco de Brasília (BRB).De acordo com as investigações da Polícia Federal, o BRB comprou carteiras de crédito e títulos podres do Master,gerando um prejuízo de 12 bilhões de reais. As irregularidades no negócio são tão flagrantes que uma simples conferência realizada em alguns cadastros já encontrou, entre outros absurdos, “clientes” com mais de 120 anos de idade que contraíram empréstimos consignados.
A nova governadora quer se manter o mais distante possível do escândalo. Ela garante — e realmente não há até agora qualquer evidência em contrário —que não teve nenhuma ingerência nas negociatas entre o BRB e o Master e que fará o que for necessário para apurar as responsabilidades.
“Deixo claro que não participei da decisão, nem sequer fui consultada sobre o assunto. Esse governo não será obstáculo, será garantidor de todas as respostas”, ressaltou.
O problema da governadora no momento está no campo político. As investigações do escândalo do Master já revelaram que o dono do banco,Daniel Vorcaro, mantinha em sua órbita autoridades de vários escalões, particularmente congressistas. Um dos melhores amigos do banqueiro,por exemplo, é o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, partido de Celina. Em diálogos encontrados no celular de Vorcaro, ele define o parlamentar como “um dos grandes amigos de vida”.
Documentos apreendidos pela polícia revelaram que, certa vez, o banqueiro chegou a reservar um helicóptero para levar o senador a uma corrida de Fórmula 1 em São Paulo.
Não se sabe se essa proximidade abriu alguma porta para as tramoias do Master. Numa das mensagens encontradas no celular do banqueiro, ele conversa com sua namorada sobre um “projeto de lei que ajudaria os bancos médios”.
Dias antes, Ciro havia apresentado no Congresso uma emenda ampliando o limite do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A proposta, que não foi aprovada, beneficiava o Master. Ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, o senador é um expoente do chamado Centrão.
A oposição, claro, vai explorar essas conexões entre o PP de Celina, Ibaneis e o escândalo do Master.“A Celina estava o tempo todo junto com o Ibaneis, tinha confiança nele. Ela afirmar que não sabia da fraude é conversa pra boi dormir”,diz o deputado Chico Vigilante (PT-DF). Por causa disso, a aliança que garantiria à vice-governadora uma reeleição relativamente tranquila já sofreu um primeiro baque.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), um cabo eleitoral importante na capital, anunciou apoio à candidatura ao Senado da deputada Bia Kicis (PL-DF) no lugar antes reservado a Ibaneis Rocha, que agora vem sendo pressionado a mudar os planos e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro, o candidato ao Planalto, e de Michelle, candidata ao Senado, também ativou o modo espera.
Além de suspender o apoio à pré-candidatura de Ibaneis, a legenda vai aguardar o desenrolar das investigações para saber se mantém a aliança com Celina. Essa parceria é considerada decisiva para as pretensões da vice-governadora.
Pesquisas mostram que os brasilienses têm se alinhado majoritariamente ao campo da direita. Em 2022, Ibaneis, com a bênção do ex-presidente da República, conquistou o Palácio do Buriti no primeiro turno, enquanto Bolsonaro teve 58% dos votos válidos no Distrito Federal. Sem esse eleitorado, Celina corre riscos.
VEJA.COM




















