A 8ª edição da Festa do Queijo, realizada neste mês em Rochedinho, distrito de Campo Grande, escancarou mais uma vez o descompasso entre o planejamento técnico e as decisões políticas dentro da Prefeitura Municipal. O evento, que deveria destacar a produção local e fomentar o comércio regional, acabou marcado por um apagão tecnológico que prejudicou comerciantes, agricultores familiares e o próprio público.
A causa do problema foi clara e, infelizmente, previsível: a sobrecarga e instabilidade da rede Wi-Fi instalada no local, que falhou em atender à demanda de expositores e visitantes. O episódio revelou a insistência de setores administrativos da Prefeitura em desconsiderar pareceres técnicos e experiências acumuladas pelos profissionais da área de tecnologia da informação — uma prática recorrente que mina a eficácia dos serviços públicos.
Desde 2020, a Agência Municipal de Tecnologia já havia se antecipado ao problema, solicitando formalmente à Anatel melhorias na cobertura de telefonia móvel em Rochedinho. O pedido foi atendido, e nos anos seguintes a recomendação técnica foi clara: utilizar preferencialmente a rede móvel, especialmente da operadora Vivo, cuja performance na região é adequada para operações com maquinetas de cartão e pagamentos via PIX.
Apesar disso, secretarias como a SEAR, SEMADES, SECULT e a própria gerência regional do Distrito, optaram por impor soluções alternativas — como o fornecimento de Wi-Fi para todo o evento — sem considerar a viabilidade técnica ou a real necessidade dos equipamentos em uso. Pior: ignoraram orientações de separar o tráfego de rede entre comerciantes e público geral, criando um cenário de colapso de conexão que paralisou operações de venda e prejudicou diretamente a arrecadação dos pequenos empreendedores.
O mais grave, porém, não é o erro em si, mas a estrutura de decisão que o permitiu: a completa falta de autonomia do setor de tecnologia da informação da Prefeitura. Técnicos qualificados, que deveriam liderar o planejamento e a execução de soluções digitais, são sistematicamente ignorados ou coagidos a implementar decisões tomadas por gestores sem formação ou compreensão técnica. Isso transforma o setor de tecnologia num mero executor de ordens políticas — mesmo quando essas ordens são equivocadas e prejudicam diretamente a população.
Não se trata de erro técnico, mas de erro administrativo. Os profissionais da área de tecnologia fizeram o que podiam dentro dos limites que lhes são impostos, e mais uma vez foram obrigados a lidar com as consequências de decisões tomadas sem critério técnico, planejamento estratégico ou escuta especializada.
A Festa do Queijo, que poderia ser exemplo de integração entre tradição e inovação, acabou revelando mais um caso clássico de “solução de vitrine” que ignora a realidade do território e despreza a expertise dos servidores públicos. Fica o alerta: enquanto a Prefeitura continuar tratando tecnologia como apêndice e não como eixo estratégico, os prejuízos — técnicos, econômicos e políticos — continuarão recaindo sobre quem menos merece: os trabalhadores e o público.
























