Até pouco tempo atrás, Ibaneis Rocha era presença garantida em qualquer microfone. Fosse em inauguração, entrevista improvisada ou palanque improvisado, o governador do Distrito Federal fazia questão de usar a voz forte para separar “os honestos dos corruptos” sempre colocando a si mesmo no primeiro grupo e os adversários no segundo. Transformou ataques em método, moralismo em marca registrada e o discurso anticorrupção em combustível político.
Mas a retórica que ajudou a consolidar sua imagem parece ter ruído sob o peso de denúncias, operações policiais e investigações que cercam seu governo. A transformação é tão brusca quanto simbólica: o político que antes trovejava contra a corrupção agora se mostra cada vez mais ausente, recluso e desconfortável diante das câmeras que antes buscava como farol.
A sucessão de escândalos
A trajetória recente do governador é marcada por episódios que abalaram seu discurso histórico.
O empresário Fernando Cavalcanti investigado por fraudes no INSS afirmou ter dado ao governador um Fusca avaliado em R$ 71 mil, episódio que gerou repercussão imediata. Em seguida, a Operação Escudero atingiu em cheio o núcleo duro do governo, levando Ibaneis a exonerar o assessor especial Olegário “Nino” Moraes, o chefe da Casa Militar e 14 seguranças.
O ápice, porém, veio com o escândalo envolvendo supostas operações irregulares entre o Banco Master e o BRB. Um processo administrativo da CVM tornou réus a chefe de gabinete de Ibaneis, Juliana Monici Souza Pinheiro, e o próprio Governo do Distrito Federal, em um caso envolvendo R$ 12,2 bilhões em títulos considerados de alto risco. A repercussão foi explosiva. Desde então, Ibaneis reduziu drasticamente as aparições públicas.
O silêncio como defesa
A mudança de comportamento é visível e comentada até entre aliados. Onde antes havia discursos inflamados, há agora declarações calculadas, raras e frias. O governador, que transformava qualquer evento em ato político, parece se esconder da própria história recente. O silêncio, antes inimaginável para um líder tão estridente, virou estratégia — ou confissão tácita de fragilidade.
É difícil não enxergar ironia na trajetória. Ibaneis construiu sua imagem atacando o que chamava de “velha política suja”, colocando-se no pedestal do combate à corrupção. Hoje, seu governo enfrenta sucessivas investigações federais, denúncias de um ex-aliado e questionamentos sobre a lisura de práticas administrativas.
A disparidade entre o político que berrava certezas e o gestor acuado que evita a imprensa se tornou a metáfora perfeita de um governo que perdeu o controle da própria narrativa.
A armadilha do próprio discurso
A política costuma ser implacável com quem exige dos outros aquilo que não consegue entregar. No caso de Ibaneis, o contraste é ainda mais gritante. O governador chegou ao poder sustentando a bandeira da integridade absoluta e agora se vê encurralado justamente pelas suspeitas que sempre considerou intoleráveis em seus adversários.
Palanques se desmancham. Microfones se apagam. E o homem que antes falava alto demais se encontra mergulhado em um silêncio que pesa mais que qualquer grito. O desgaste público é evidente, e a imagem construída com tanta veemência parece agora ruir com a mesma força dos ataques que ele lançava.
O Ibaneis dos discursos inflamados virou o Ibaneis que evita a própria sombra. E essa mudança, mais do que qualquer denúncia, escancara a distância entre o personagem e a realidade que o alcançou.




















