O Distrito Federal passou a ocupar uma posição preocupante no cenário da criminalidade patrimonial no país. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 revelam que a capital federal registrou, em 2025, a segunda maior taxa de estelionatos do Brasil, com 1.717 ocorrências para cada 100 mil habitantes, ficando atrás apenas de São Paulo.
O levantamento evidencia que os golpes, cada vez mais sofisticados e fortemente apoiados no ambiente digital, vêm crescendo em ritmo acelerado no DF. Além da elevada taxa proporcional, o número de estelionatos praticados por meio eletrônico apresentou uma escalada expressiva: foram 25.658 registros em 2025, contra 18.690 em 2024, um aumento de 36,6% em apenas um ano. O percentual coloca o Distrito Federal entre as unidades da Federação com maior crescimento desse tipo de crime.
Especialistas apontam que a expansão do uso de aplicativos de mensagens, redes sociais, serviços bancários digitais e o vazamento de dados pessoais criaram um ambiente favorável para a atuação de organizações criminosas especializadas em fraudes eletrônicas.
Golpe do “falso advogado” preocupa autoridades
Entre as modalidades que mais têm chamado a atenção está o chamado golpe do falso advogado, que se espalhou rapidamente pelo Distrito Federal nos últimos meses.
Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF), entre janeiro de 2025 e março de 2026 foram registradas 1.586 denúncias relacionadas a esse tipo de fraude junto à Diretoria de Prerrogativas.
O esquema consiste em utilizar informações públicas de processos judiciais para convencer vítimas de que possuem valores expressivos a receber em ações judiciais.
Os criminosos entram em contato utilizando fotografias, logotipos e nomes de escritórios de advocacia verdadeiros. Em alguns casos, chegam a acessar informações processuais obtidas por meio de credenciais comprometidas ou vazamentos de dados, aumentando a credibilidade da fraude.
Após conquistar a confiança da vítima, alegam que é necessário realizar um pagamento imediato para liberar o suposto crédito judicial, seja a título de custas, impostos ou honorários. O dinheiro é transferido diretamente para contas controladas pelos golpistas.
Prejuízos milionários
As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) demonstram que o impacto financeiro desses golpes é elevado.
Em uma das operações mais recentes, um grupo criminoso foi preso após provocar um prejuízo estimado em R$ 400 mil, utilizando informações reais de processos judiciais para enganar vítimas.
Outros episódios reforçam a dimensão do problema. Uma quadrilha especializada causou prejuízo superior a R$ 1,4 milhão, atingindo pelo menos 30 pessoas no Distrito Federal. Em outro caso, uma moradora de 65 anos perdeu mais de R$ 500 mil acreditando estar tratando diretamente com seu advogado, após os criminosos utilizarem dados reais do processo para tornar a fraude convincente. Também foi desarticulado um esquema que utilizava senhas vazadas para acessar informações do Judiciário, deixando oito vítimas e um prejuízo aproximado de R$ 50 mil.
As investigações indicam que as organizações criminosas atuam de forma estruturada, utilizando engenharia social, bancos de dados obtidos ilegalmente e ferramentas tecnológicas para tornar as abordagens cada vez mais convincentes.
Crimes digitais desafiam a segurança pública
O crescimento dos estelionatos eletrônicos acompanha uma tendência nacional. A facilidade para obtenção de informações pessoais na internet, aliada ao aumento das transações financeiras digitais, ampliou significativamente o campo de atuação dos fraudadores.
Diferentemente dos crimes patrimoniais tradicionais, os golpes virtuais podem ser aplicados em larga escala, com baixo custo operacional e reduzido risco para os criminosos, que frequentemente utilizam contas de terceiros, documentos falsificados e estruturas espalhadas por diferentes estados.
Para as autoridades, o combate exige investimentos constantes em inteligência policial, tecnologia de rastreamento financeiro, cooperação entre instituições e campanhas permanentes de orientação à população.
Como evitar cair em golpes
A OAB-DF e a Polícia Civil orientam que a população nunca realize pagamentos para liberar valores de processos judiciais sem confirmar a informação diretamente com seu advogado. Também recomendam desconfiar de mensagens enviadas por números desconhecidos, ainda que utilizem fotografias e logotipos de escritórios de advocacia, verificar qualquer solicitação por meio dos canais oficiais do profissional responsável, jamais compartilhar senhas, códigos de autenticação ou dados bancários por aplicativos de mensagens e, diante de qualquer suspeita, registrar imediatamente um boletim de ocorrência e comunicar a instituição financeira para tentar bloquear as transações.
Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública demonstram que o estelionato deixou de ser um crime pontual para se transformar em um dos principais desafios da segurança pública brasileira. No Distrito Federal, o avanço dos golpes eletrônicos evidencia que a prevenção, a educação digital e o fortalecimento das investigações serão determinantes para conter uma modalidade criminosa que cresce em velocidade superior à capacidade de reação das vítimas.




















