Em Rondônia, o governador Marcos Rocha (PSD) percorre hoje um caminho político que contrasta frontalmente com a trajetória que o levou ao Palácio Rio Madeira. Eleito em 2018 como um completo desconhecido do eleitorado, Rocha surfou no capital político de Jair Bolsonaro, fenômeno que se repetiu em sua reeleição, em 2022. Até então, seus discursos e gestos públicos sinalizavam alinhamento inequívoco ao bolsonarismo.
O distanciamento, porém, tornou-se evidente justamente no momento mais crítico para o ex-presidente. Durante o processo que culminou na condenação e prisão de Bolsonaro, Marcos Rocha optou pelo silêncio. Não houve manifestações públicas de apoio nem posicionamentos quando o antigo aliado enfrentava o auge da crise. A postura contrastou com a retórica de fidelidade exibida nos anos em que o bolsonarismo rendia dividendos eleitorais.
A guinada se consolida com a filiação ao PSD, partido comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, ex-ministro do governo Dilma Rousseff. No plano nacional, a legenda projeta disputar espaço eleitoral contra Flávio Bolsonaro, nome indicado pelo ex-presidente para as urnas. Em Rondônia, o movimento cria uma situação simbólica e politicamente delicada: Marcos Rocha, agora à frente do PSD estadual, terá de fazer campanha contra o candidato do bolsonarismo.
O PSD, por sua vez, se organiza em torno de um projeto presidencial próprio, com três governadores cotados: Ratinho Junior (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS). Paralelamente, a sigla ocupa atualmente três ministérios no governo Lula — Pesca, Agricultura e Minas e Energia — e não descarta integrar uma futura administração federal caso o projeto lulista prevaleça nas urnas.
No tabuleiro regional, a composição também carrega forte simbolismo. Marcos Rocha se alia ao ex-senador cassado Expedito Junior, responsável por abrir espaço no PSD estadual para que o governador assumisse o comando partidário. Expedito é pai de Expedito Netto, hoje pré-candidato ao governo de Rondônia pelo PT, apesar de ter votado pelo impeachment de Dilma Rousseff e denunciado a legenda como corrupta à época. A imagem de “um pé em cada canoa” resume a ambiguidade do arranjo.
A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa o discurso do próprio governador sobre lealdade. Marcos Rocha acusa com frequência o vice-governador Sergio Gonçalves de traição, ao mesmo tempo em que se afasta do líder político que lhe deu visibilidade nacional e a quem deve o cargo que ocupa. A metáfora do “criador e da criatura” se impõe: o político forjado no bolsonarismo agora rema em direção oposta ao seu padrinho eleitoral.
Em contraste, o senador Marcos Rogério (PL) segue fiel a Bolsonaro, embora, no passado, também tenha desferido golpes políticos contra seu próprio mentor, o ex-senador Acir Gurgacz um capítulo que rende outra análise.
Para Marcos Rocha, caso decida disputar uma vaga ao Senado, o desafio eleitoral é evidente. Rondônia mantém um eleitorado majoritariamente identificado com Bolsonaro — base que o elegeu e reelegeu governador. Em uma eventual campanha, Rocha terá de explicar por que se afastou do ex-presidente justamente quando este enfrentava a maior crise de sua trajetória, após ter se beneficiado diretamente de seu prestígio para alcançar um posto que, sem essa associação, dificilmente teria conquistado.
Na política, mudanças de rota são comuns. Ainda assim, permanece a pergunta central: como convencer o eleitor bolsonarista a confiar uma terceira vez em quem rompeu com o projeto que o levou ao poder? A resposta tende a definir o futuro eleitoral de Marcos Rocha em Rondônia.
Não à toa, já se disse que a maior traição que um político pode cometer é contra os próprios eleitores.























