O investimento de R$ 5,67 milhões na compra de painéis de LED para o Parque Novo Mato Grosso, ainda em fase de obras, tem levantado dúvidas sobre a utilidade e a gestão dos recursos públicos. A aquisição foi realizada pelo Governo de Mato Grosso, por meio da MT Participações e Projetos S.A. (MT-Par), durante a gestão do governador Mauro Mendes (União).
A principal crítica gira em torno da necessidade dos equipamentos. No setor de eventos, é prática comum que estruturas como painéis de LED, iluminação e sistemas de som sejam fornecidas pelos próprios artistas ou produtoras, como parte dos contratos. Especialistas apontam que, ao adquirir esses itens, o Estado assume custos que tradicionalmente pertencem à iniciativa privada.
Equipamentos comprados antes da conclusão da obra
O Parque Novo Mato Grosso ainda não foi concluído. A própria MT-Par prorrogou contratos de fornecimento de insumos até abril de 2027, o que indica que o espaço segue em construção. Mesmo assim, os painéis de LED já foram adquiridos, o que implica custos adicionais com armazenamento, conservação e manutenção até que possam ser utilizados.
A previsão é de que o parque funcione principalmente para eventos de grande porte, que não ocorrem de forma contínua. Nesse cenário, reforça-se o argumento de que os equipamentos poderiam ser fornecidos sob demanda, conforme a realização dos eventos.
Risco de obsolescência e custos futuros
Outro ponto levantado é a rápida evolução da tecnologia de LED. Equipamentos adquiridos hoje podem se tornar obsoletos em poucos anos, tanto em qualidade de imagem quanto em compatibilidade técnica. Além disso, os painéis foram comprados de uma empresa chinesa, o que pode encarecer e dificultar a reposição de peças e a assistência técnica, dependente de logística internacional.
Especialistas destacam que, ao optar pela compra, o Estado assume um ativo que se desvaloriza ao longo do tempo e que exigirá manutenção constante, ampliando o custo total da operação.
Impacto sobre empresas locais
A decisão também gerou críticas no setor econômico regional. Empresas brasileiras e mato-grossenses que atuam na locação de equipamentos para eventos ficaram de fora do processo. O setor aponta que a escolha por um fornecedor estrangeiro reduz o impacto positivo na economia local, como geração de empregos, arrecadação de impostos e fortalecimento da cadeia produtiva.
Licitação contestada
O processo de aquisição (Pregão Eletrônico nº 027/2025-MTPAR) foi vencido pela empresa chinesa Shenzhen Yishi Optoelectronics Co., Ltd. A licitação foi questionada judicialmente pela empresa brasileira RDA Importação, Exportação e Serviços S.A., que alegou irregularidades na desclassificação de sua proposta e na reclassificação da concorrente estrangeira.
Entre os pontos levantados estavam supostas falhas no cumprimento do edital, ausência de informações técnicas e mudanças nas regras de lances. Apesar disso, a Justiça negou o pedido de suspensão do certame. A juíza Laura Dorilêo Cândido entendeu que a comissão de licitação agiu dentro dos princípios legais, considerando válida a reavaliação da proposta vencedora.
Mesmo com a decisão, a sequência de classificações e reclassificações no processo reforçou críticas sobre a condução da licitação.
Economia questionada
O governo afirma que houve economia de R$ 6,7 milhões em relação ao valor inicialmente previsto. No entanto, analistas ponderam que esse argumento pode ser relativizado caso o orçamento de referência tenha sido superestimado. Nesse caso, a redução seria apenas um ajuste ao valor real de mercado.
Além disso, especialistas ressaltam que a economia inicial não considera os custos futuros, como manutenção, armazenamento e eventual substituição dos equipamentos.
Histórico de controvérsias
Este não é um caso isolado. Em 2024, a MT-Par também enfrentou questionamentos ao contratar uma empresa chinesa para instalar uma roda-gigante de 108 metros por cerca de R$ 9,9 milhões no mesmo parque. Na ocasião, concorrentes apontaram inconsistências no portfólio apresentado pela vencedora e possíveis irregularidades técnicas.
O conjunto de casos tem levantado preocupações sobre um padrão nas contratações: licitações internacionais contestadas, fornecedores estrangeiros e justificativas baseadas em economia inicial, sem considerar o custo total ao longo do tempo.
Debate segue aberto
Diante dos questionamentos, o investimento nos painéis de LED se tornou mais um ponto de debate sobre planejamento, prioridades e eficiência no uso de recursos públicos em Mato Grosso. A discussão envolve não apenas a legalidade das contratações, mas também a estratégia adotada para a gestão de equipamentos e o impacto econômico das decisões governamentais.






















