GDF recua após pressão e mantém Festival de Brasília, mas crise expõe abandono da cultura

Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

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Evento mais longevo do país quase foi cancelado por falta de recursos; profissionais trabalham há meses sem receber e governo só mudou de posição após forte reação do setor  

O Governo do Distrito Federal (GDF) precisou recuar depois de colocar em risco a realização do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos principais patrimônios culturais da capital. Após anunciar que não havia recursos para garantir o evento, a gestão da governadora Celina Leão (PP) voltou atrás diante da pressão de artistas, produtores e da sociedade e confirmou a realização da mostra em setembro. 

A mudança de posição, porém, não apaga a condução problemática do episódio. O festival não chegou à beira do cancelamento por falta de relevância ou de público. Chegou porque o governo não conseguiu assegurar, com antecedência, os recursos necessários para um evento que está no calendário oficial de Brasília há décadas. 

Celina Leão determinou que a Secretaria de Economia providencie os recursos para a realização da edição deste ano. O anúncio representa um recuo significativo em relação à posição adotada poucos dias antes, quando a própria governadora afirmou que o festival não era prioridade diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo Distrito Federal. 

O problema é que a conta da falta de planejamento já chegou aos trabalhadores. 

Profissionais trabalham desde março sem receber 

Cerca de 40 profissionais envolvidos na curadoria, produção, logística e comunicação trabalham na preparação do festival desde março sem receber pelos serviços prestados. 

A organização estima que sejam necessários aproximadamente R$ 3 milhões para viabilizar a edição de 2026. O dinheiro precisa ser liberado rapidamente para que sejam quitados compromissos e contratados serviços indispensáveis à realização do evento. 

A situação revela uma contradição difícil de ignorar: enquanto o governo anuncia a realização do festival, profissionais responsáveis por colocar o evento de pé ainda aguardam o pagamento pelo trabalho que já executaram. 

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Também estão comprometidas as passagens aéreas de convidados e artistas de outros estados. Segundo Henrique Rocha, diretor-geral de produção, o patrocínio do BRB, de cerca de R$ 750 mil anuais, é feito por meio de reembolso. Sem dinheiro em caixa, a produção não consegue antecipar as despesas. 

Ou seja, mesmo quando existem recursos previstos para o evento, o modelo de financiamento exige uma capacidade financeira que a organização não possui diante dos atrasos do próprio governo. 

Cultura paga a conta da crise financeira 

A justificativa apresentada pelo GDF para a falta de recursos está relacionada à crise financeira do Distrito Federal, agravada pelas dificuldades enfrentadas pelo Banco de Brasília (BRB) após operações bilionárias envolvendo o Banco Master. 

O episódio expõe, entretanto, uma escolha política. Em meio a uma crise fiscal provocada por problemas muito maiores e mais complexos, um dos primeiros efeitos concretos sentidos pela população foi a ameaça de interrupção de um evento cultural histórico e o atraso no pagamento de trabalhadores. 

O festival acabou transformado em uma espécie de variável de ajuste de uma crise que não foi criada pelos produtores, artistas ou trabalhadores da cultura. 

A pergunta que fica é por que um evento realizado há quase seis décadas não tinha recursos assegurados com antecedência suficiente para evitar que sua continuidade dependesse de uma mobilização pública de última hora. 

Pressão popular obrigou governo a recuar 

A confirmação da realização veio somente depois de uma forte reação do setor cultural. 

O diretor artístico Eduardo Valente convocou artistas e produtores para pressionar pela manutenção do festival. Nomes como Maeve Jinkings, Alessandra Negrini e Barbara Colen também criticaram a possibilidade de cancelamento. 

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A reação evidencia outro problema da condução do GDF: a decisão de cancelar ou inviabilizar o festival provocou tamanha repercussão negativa que o governo acabou obrigado a rever sua posição. 

O recuo mostra que a pressão funcionou. Mas também deixa a impressão de que, sem mobilização, o evento poderia simplesmente ter sido retirado do calendário. 

Festival bate recorde enquanto governo ameaça continuidade 

A ameaça de cancelamento ocorre justamente no ano em que o Festival de Brasília registrou recorde de 1.928 filmes inscritos. 

Criado em 1965, o festival é o mais longevo do país e foi reconhecido como patrimônio imaterial do Distrito Federal em 2007. A mostra só deixou de ser realizada durante três anos da ditadura militar, quando sua organização decidiu suspender o evento em protesto. 

Agora, quase seis décadas depois, a ameaça veio de outra frente: a incapacidade do poder público de garantir recursos e cumprir compromissos dentro do prazo. 

59ª edição está prevista para ocorrer de 11 a 19 de setembro, tendo o tradicional Cine Brasília como principal espaço de exibição. 

A confirmação do evento é positiva, mas não resolve o problema criado pelo próprio governo. Ainda é preciso liberar os recursos, pagar quem já trabalhou e garantir a infraestrutura necessária. 

Mais do que uma crise pontual, o episódio deixa um alerta sobre a forma como a cultura vem sendo tratada pelo GDF. Um festival que ajudou a construir a identidade cultural de Brasília não deveria depender de pressão nas redes sociais para descobrir, a poucas semanas de sua realização, se terá ou não dinheiro para acontecer.

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