Distrito Federal

Bancada do DF destina R$ 109 milhões para Goiás e ignora freio do STF sobre emendas parlamentares

Foto: Pedro França/Agência Senado

publicidade

Envio de verbas ao estado vizinho contraria entendimento do STF e reacende debate sobre uso político das emendas.

 

A destinação de R$ 109 milhões em emendas parlamentares por deputados e senadores eleitos pelo Distrito Federal para o estado de Goiás, em 2025, colocou a bancada do DF no centro de uma nova controvérsia sobre o uso do Orçamento da União. O caso ganha ainda mais relevância por ocorrer em meio ao endurecimento do Supremo Tribunal Federal (STF) contra práticas consideradas opacas, personalistas e desconectadas do princípio federativo.

Embora os parlamentares aleguem que os recursos atendem demandas do Entorno do DF, os números revelam uma transferência significativa de verbas públicas para fora da unidade federativa que elegeu esses representantes, levantando questionamentos sobre prioridade política, legalidade e finalidade pública.

Quem mais enviou recursos para fora do DF

Levantamento com base em dados do Portal da Transparência mostra que o senador Izalci Lucas (PL) lidera os repasses para Goiás, com R$ 23,37 milhões, valor que supera em mais de duas vezes o montante destinado por ele ao próprio Distrito Federal, que recebeu R$ 9,9 milhões.

Na sequência aparecem:

  • Rafael Prudente (MDB): R$ 18,6 milhões
  • Alberto Fraga (PL): R$ 18 milhões
  • Fred Linhares (Republicanos): R$ 13,6 milhões
  • Damares Alves (Republicanos): R$ 11,2 milhões
Leia Também:  Processo contra deputado Daniel Donizet acusado de assédio e abuso de poder é adiado na CLDF após Vistas

O volume e a concentração dos repasses chamam atenção em um contexto no qual o DF enfrenta carências estruturais na saúde pública e pressão crescente sobre sua rede de atendimento.

STF impõe limites e cobra vinculação federativa

A movimentação da bancada ocorre em sentido oposto às decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, que passou a restringir o uso das emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino determinou que os recursos devem obedecer a uma “absoluta vinculação federativa”, reforçando que deputados e senadores são representantes de estados e do Distrito Federal, e não de interesses regionais difusos ou pessoais.

Além disso, o STF suspendeu o pagamento das chamadas emendas Pix e de outras modalidades impositivas até que o Congresso estabeleça regras que assegurem transparência, rastreabilidade e controle. Nesse modelo, os recursos eram transferidos diretamente a prefeituras, sem exigência prévia de projetos, metas ou justificativas técnicas.

Para a Corte, o mecanismo abriu espaço para clientelismo, uso político do Orçamento e enfraquecimento da fiscalização.

Justificativas e vínculos pessoais

Parlamentares que destinaram recursos fora do DF apresentaram justificativas diversas. O deputado Gilvan Maximo (Republicanos-DF) enviou R$ 800 mil para Rubiataba (GO), sua cidade natal, e R$ 6,3 milhões para Planaltina (GO), alegando proximidade territorial com o Distrito Federal.

Já a deputada Bia Kicis (PL-DF) destinou R$ 150 mil para São Paulo por meio de emenda Pix, com o objetivo de financiar um documentário cultural produzido por empresa sediada naquele estado. Segundo a parlamentar, a execução do projeto ocorreria em Brasília.

Leia Também:  Monteiro acata denúncia de ‘amigos’ de Razuk e suspende no TCE-MS licitação da loteria estadual

As explicações, no entanto, são vistas por especialistas em contas públicas como frágeis e insuficientes diante da exigência constitucional de vinculação federativa.=

Orçamento sob disputa e déficit de controle

Atualmente, as emendas impositivas, de execução obrigatória pelo Executivo, já representam cerca de 65% do total das emendas previstas, movimentando bilhões de reais. O crescimento desse instrumento ampliou de forma expressiva o poder do Legislativo sobre o Orçamento da União, sem que os mecanismos de controle tenham avançado no mesmo ritmo.

O caso da bancada do DF reforça críticas de que o sistema de emendas se transformou em um atalho para atender interesses políticos específicos, muitas vezes à margem de critérios técnicos e das prioridades locais.

Impacto político

Ao direcionar recursos expressivos para fora de sua base eleitoral em meio a restrições impostas pelo STF, parlamentares do Distrito Federal ampliam o desgaste sobre a credibilidade do Congresso e reacendem o debate sobre os limites do poder orçamentário do Legislativo.

O episódio evidencia a pressão por regras mais rígidas, fiscalização efetiva e maior alinhamento entre representação política e interesse público, sob risco de aprofundar a crise de confiança na gestão dos recursos federais.

 

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

Previous slide
Next slide

publicidade

Previous slide
Next slide