No início da campanha pela reeleição, a governadora Celina Leão (PP) parece ter escolhido uma estratégia confortável para enfrentar seus adversários: desdenhar das críticas em vez de respondê-las. Em agendas públicas, a governadora tem tratado os questionamentos da oposição como mero ruído eleitoral e evitado entrar no mérito dos problemas apontados contra sua administração.
Durante uma visita às obras da nova UPA do Sol Nascente, Celina afirmou que “não está preocupada” com os ataques que vem recebendo. Segundo ela, quem parte para a crítica o faz porque não teria realizações próprias para apresentar.
“As pessoas que partem o tempo todo para o ataque é porque não têm o que mostrar”, afirmou.
A declaração resume uma postura que pode se tornar uma das marcas da campanha: quando questionada sobre seu governo, Celina prefere falar dos adversários.
Indiferença não responde a problemas
O problema dessa estratégia é que chamar críticas de “ataques” não faz com que os questionamentos desapareçam. A população não escolhe seus governantes apenas pela quantidade de obras inauguradas, mas também pela capacidade de responder às dificuldades enfrentadas no dia a dia.
Ao afirmar que não está preocupada com os adversários, Celina transmite uma imagem de segurança política. Mas a indiferença também pode ser interpretada como uma tentativa de escapar de perguntas incômodas.
A oposição tem o papel de fiscalizar, questionar e apontar falhas. Se as acusações são injustas ou exageradas, caberia à governadora apresentar números, resultados e argumentos para desmontá-las. O contra-ataque pessoal, por si só, não substitui uma resposta.
Cappelli vira alvo do contra-ataque
O comportamento ficou evidente também nas críticas dirigidas a Ricardo Cappelli (PSB). Em vez de concentrar a discussão nos questionamentos feitos ao governo do Distrito Federal, Celina preferiu atacar a trajetória do adversário na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
A lógica é simples, se o adversário critica, a resposta é questionar o passado dele.
É uma estratégia recorrente na política, mas que pouco contribui para esclarecer o eleitor. O cidadão que cobra melhorias na saúde, na educação, no transporte ou na segurança não necessariamente está interessado em saber quem tem o melhor currículo político. Ele quer saber o que o governo está fazendo, o que não está funcionando e por quê.
Obras não podem servir de escudo permanente
Celina aposta fortemente na divulgação de obras e realizações de seu governo para sustentar sua candidatura. A estratégia de comunicação é legítima, mas não deveria transformar inaugurações e anúncios em uma espécie de escudo contra críticas.
Uma obra pode ser positiva e, ainda assim, um governo continuar sujeito a cobranças. Governar não é apenas entregar prédios, anunciar investimentos ou participar de agendas públicas. É também prestar contas, reconhecer problemas e responder às críticas.
Ao transformar seus adversários no alvo principal de suas declarações, Celina corre o risco de produzir uma campanha na qual se fala mais sobre a falta de realizações dos outros do que sobre os problemas e resultados de sua própria administração.
O eleitor terá a palavra
A postura de enfrentamento indireto pode funcionar enquanto a campanha estiver baseada em discursos e agendas positivas. O problema é que, à medida que a eleição avançar, a oposição deverá aumentar a pressão e apresentar críticas mais específicas à administração.
Nesse momento, dizer que não está preocupada talvez não seja suficiente.
Celina Leão pode até ignorar seus adversários, mas não poderá ignorar o eleitor. É ele quem terá de avaliar se as obras apresentadas pelo governo são suficientes para compensar os problemas, as críticas e as promessas ainda não cumpridas.
No fim, a estratégia de desdém pode esconder o confronto por algum tempo. Mas, em uma eleição, não responder às críticas também é uma escolha e o eleitor pode cobrar o preço dessa escolha nas urnas.






















