A tentativa de dissociar a vice-governadora Celina Leão do escândalo envolvendo o BRB e o Banco Master pode até encontrar amparo no discurso jurídico-formal, mas enfrenta um obstáculo difícil de contornar no terreno da política: a responsabilidade compartilhada de quem integrou o núcleo de poder durante todo o período que culminou no prejuízo bilionário.
Celina sustenta que não participou das negociações, que não foi consultada e que tomou conhecimento dos fatos pela imprensa. Até o momento, não há documento público que contradiga diretamente essa versão sob a ótica estritamente penal. A ausência de assinatura, despacho ou prova material de benefício pessoal a mantém distante de imputações criminais imediatas.
O problema, porém, não é apenas jurídico é político.
Celina Leão não ocupava posição periférica no governo Ibaneis Rocha. Foi vice-governadora atuante ao longo de anos de gestão que agora carrega o que já é tratado como o maior rombo da história do BRB, com impactos potenciais sobre recursos públicos, fundos previdenciários e a credibilidade financeira do Distrito Federal.
A alegação de desconhecimento pode até funcionar como linha de defesa técnica. Mas não elimina a questão central: integrar o governo que criou as condições políticas e administrativas que permitiram a operação hoje questionada.
O caso do Banco Master não surgiu de forma isolada. Ele é associado a um ambiente de decisões concentradas, desconsideração de alertas técnicos e uso político de um banco público como instrumento de poder. Esse contexto era público, reiterado e defendido pelo próprio núcleo governamental.
Houve pressão política explícita para o avanço do negócio, aprovação legislativa e condução de uma operação considerada temerária mesmo diante de sinais de risco. Nesse cenário, a vice-governadora não era observadora externa, mas parte integrante da administração responsável pelas escolhas estratégicas.
A estratégia de pré-campanha que tenta isolá-la do episódio afastando sua imagem da direção do banco e apresentando divergências internas — pode ter efeito comunicacional imediato. No entanto, enfrenta um limite evidente: a permanência por anos no centro do governo implica também compartilhar seus fracassos estruturais.
E o fracasso em questão não é marginal. Envolve cifras bilionárias, risco previdenciário, investigações federais, desgaste institucional do BRB e abalo político de toda a gestão. Esses elementos não se transferem por narrativa; decorrem da própria lógica de participação no poder.
No debate público, portanto, a questão deixa de ser se Celina Leão teve participação direta em eventual irregularidade. A pergunta que persiste é outra: qual foi seu papel político enquanto as decisões que levaram ao maior prejuízo do banco público eram tomadas?
A resposta inevitável é que ela estava no governo. E, na política, estar no governo significa também responder por suas consequências.
























