Com Ibaneis fora do Buriti para disputar o Senado, vice fica exposta ao desgaste de um governo sob suspeita
A decisão do governador Ibaneis Rocha (MDB) de deixar o comando do Governo do Distrito Federal em abril para disputar uma vaga no Senado pode ter efeitos diretos e negativos sobre a pré-candidatura da vice-governadora Celina Leão (PP) ao Palácio do Buriti. A transição ocorre em meio a uma combinação de crises que tende a concentrar sobre Celina o desgaste político de uma gestão pressionada por investigações criminais, instabilidade fiscal e perda de confiança institucional.
Com a saída de Ibaneis, Celina não apenas assume o cargo, mas herda integralmente o ônus político do governo em seu momento mais delicado desde o início da atual gestão.
Governo sob investigação passa a ter novo rosto
O principal fator de desgaste é o chamado “Caso Master”, investigação da Polícia Federal que apura possíveis irregularidades em operações bilionárias entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. O episódio atingiu diretamente o núcleo do governo ao envolver o banco público controlado pelo DF e ao trazer à tona depoimentos que citam reuniões entre o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o governador Ibaneis Rocha.
Embora Ibaneis negue irregularidades, sua saída do cargo desloca o foco político da crise. A partir de abril, Celina Leão passará a ser o rosto institucional de um governo sob investigação, mesmo não tendo sido apontada diretamente nas apurações. No ambiente eleitoral, a distinção entre responsabilidade administrativa e envolvimento pessoal tende a se perder, ampliando o desgaste da pré-candidata.
Fim do escudo político
Enquanto Ibaneis permanece no cargo, Celina atua sob uma espécie de escudo político, com o governador absorvendo a maior parte das críticas e pressões institucionais. Com a desincompatibilização, esse escudo desaparece.
Além disso, a saída do governador enfraquece a capacidade de contenção de danos dentro da base aliada. Parlamentares e aliados, que hoje evitam confrontos diretos com o Executivo, passam a recalcular posições diante de um governo em transição e de uma candidatura ainda em consolidação.
Crise fiscal atinge diretamente a narrativa eleitoral
Outro fator que pode comprometer a campanha de Celina é o contingenciamento de R$ 1 bilhão no orçamento do DF. O corte, anunciado às vésperas do ano eleitoral, impacta áreas sensíveis como saúde, educação e infraestrutura — setores que tradicionalmente influenciam o voto do eleitorado brasiliense.
Como governadora em exercício, Celina será responsabilizada politicamente pelos efeitos do ajuste fiscal, mesmo que a decisão tenha sido tomada ainda sob a gestão de Ibaneis. Na prática, a candidata corre o risco de disputar a eleição defendendo cortes, em vez de apresentar uma agenda propositiva.
Dificuldade de construir identidade própria
A conjuntura também limita o espaço para que Celina Leão construa uma identidade política própria. Com pouco tempo à frente do governo e sob pressão permanente, sua gestão tende a ser marcada mais pela administração de crises do que por anúncios estruturantes ou políticas inovadoras.
Aliados avaliam que qualquer tentativa de se distanciar publicamente de Ibaneis pode gerar fissuras na base governista, enquanto a manutenção de uma defesa incondicional do atual governador reforça a associação da pré-candidata ao desgaste acumulado.
Campanha sob o signo da defensiva
Nos bastidores, a oposição já trabalha para transformar a sucessão no Buriti em um plebiscito sobre a atual gestão. A estratégia passa por associar Celina Leão à crise no BRB, aos pedidos de impeachment no STJ e à fragilidade fiscal do DF.
Nesse cenário, a pré-candidata corre o risco de iniciar a campanha em posição defensiva, obrigada a responder continuamente a questionamentos sobre investigações, cortes orçamentários e decisões herdadas, enquanto adversários disputam o espaço do discurso propositivo.
Vitrine que cobra preço alto
A vitrine do cargo, tradicionalmente vista como vantagem eleitoral, pode se transformar em um passivo. Ao assumir o governo em um momento de instabilidade, Celina ganha visibilidade, mas também assume a responsabilidade direta por um governo fragilizado politicamente e sob desconfiança institucional.
Com a saída de Ibaneis para a disputa ao Senado, a sucessão no Buriti deixa de ser apenas uma etapa administrativa e passa a representar um dos maiores riscos eleitorais para Celina Leão. O sucesso ou fracasso de sua candidatura dependerá menos da herança de obras e mais de sua capacidade de atravessar um período de crises sem que elas se consolidem como o principal rótulo de sua campanha.




















