O volume de recursos públicos destinados à empresa Oeste Construtora EIRELI, associada ao deputado estadual Valmir Moretto, acendeu um alerta sobre a transparência e os critérios de contratação no governo de Mauro Mendes. Dados do Portal FIPLAN apontam que a empreiteira acumulou R$ 272,3 milhões em empenhos entre 2022 e 2026 período que coincide com o segundo mandato do governador.
A cifra expressiva, por si só, já chama atenção. Mas o que amplia a gravidade do caso é a concentração de contratos na mesma gestão e a ligação direta ainda que contestada com um parlamentar em exercício. Especialistas em administração pública ouvidos por reportagens semelhantes em outros casos costumam apontar que situações assim exigem rigor redobrado na fiscalização, justamente para evitar favorecimento e garantir competitividade nos processos licitatórios.
A repercussão ganhou novos contornos após um episódio que viralizou nas redes sociais. Durante o lançamento de obras na região oeste de Mato Grosso, Moretto, sem perceber que estava com o microfone aberto, afirmou que mais de R$ 200 milhões haviam sido distribuídos em três lotes — sendo dois destinados à empresa Agrimat e um à empresa ligada a ele. A declaração, feita de forma espontânea, levantou dúvidas sobre possível influência política na divisão dos contratos.
Posteriormente, o deputado afirmou não ser mais proprietário da empresa, alegando ter transferido o controle para um familiar. Ainda assim, a explicação não foi suficiente para conter as críticas. Para analistas, a simples transferência formal de controle não afasta automaticamente questionamentos sobre conflito de interesses, especialmente quando há vínculos familiares e proximidade política.
Outro ponto que intensifica a controvérsia é o silêncio do governo estadual. Até o momento, não houve manifestação pública de Mauro Mendes sobre o caso, o que, para críticos, reforça a percepção de falta de transparência. Em um cenário de altos valores e forte repercussão, a ausência de esclarecimentos oficiais tende a alimentar desconfianças na opinião pública.
A situação expõe um problema recorrente na gestão pública brasileira: a linha tênue entre relações políticas e contratos milionários. Quando empresas associadas a agentes públicos acumulam cifras elevadas em uma mesma administração, a cobrança por explicações não é apenas legítima — é necessária.
Diante dos fatos, órgãos de controle como Ministério Público e tribunais de contas devem ser acionados para avaliar a regularidade dos contratos, a lisura dos processos licitatórios e a eventual existência de favorecimento. Transparência, neste caso, não é opcional é obrigação.
Enquanto isso, o episódio do “microfone aberto” segue como símbolo de um problema maior: a necessidade urgente de separar, de forma clara e inequívoca, o interesse público de interesses privados dentro da máquina estatal.






















