Investimentos milionários em órgãos arrecadatórios contrastam com hospitais superlotados, falta de leitos e uma crise sanitária permanente no Distrito Federal
O Governo do Distrito Federal voltou a demonstrar, nesta semana, quais são suas prioridades. Em solenidade cercada de discursos sobre modernização e preservação de vidas, o Palácio do Buriti celebrou a entrega de 167 novas viaturas ao Detran-DF, ao custo de R$ 24,5 milhões. O investimento, apresentado como essencial para reforçar a segurança viária, contrasta de forma gritante com a realidade enfrentada diariamente por quem depende da rede pública de saúde do Distrito Federal.
A renovação da frota inclui caminhonetes 4×4, motocicletas, caminhões, empilhadeiras e vans, além da locação de dezenas de veículos administrativos. Soma-se a isso a aquisição de 1.300 novos computadores e o lançamento de uma assistente virtual para agilizar serviços. Tudo organizado, planejado e executado com rapidez.
Na outra ponta, a saúde do DF permanece imersa em um cenário crônico de caos. Prontos-socorros superlotados, pacientes aguardando dias por leitos de UTI, falta de médicos, insumos básicos escassos e sucessivas decisões judiciais obrigando o governo a cumprir o mínimo constitucional tornaram-se parte da rotina. Não se trata de um problema pontual, mas de uma crise estrutural persistente, que atravessa gestões e que, no atual governo, segue sem respostas à altura.
O contraste levanta uma questão incômoda: por que áreas com alto potencial de arrecadação, como o Detran, avançam com investimentos milionários, enquanto a saúde depende de medidas emergenciais e decisões judiciais para funcionar? O trânsito, além de sua função regulatória, é uma das principais fontes de receitas do governo, por meio de multas, taxas e serviços. Já a saúde, embora seja um direito fundamental, consome recursos sem gerar retorno financeiro direto — e parece, por isso, tratada como um problema a ser administrado, não como prioridade absoluta.
O discurso oficial insiste em associar o investimento no Detran à preservação de vidas. A ironia é inevitável, vidas também se perdem diariamente nas filas dos hospitais, na demora por atendimento especializado e na ausência de estrutura adequada. Nessas situações, não há solenidades, nem entregas simbólicas, apenas famílias à espera de respostas que quase nunca chegam.
Ao priorizar a modernização de um órgão arrecadador enquanto tolera a precariedade da saúde pública, o governo Ibaneis envia um recado claro sobre sua lógica de gestão. Não se discute a importância da fiscalização de trânsito ou da renovação de frota, mas sim o desequilíbrio nas escolhas políticas e orçamentárias. Governar é escolher, e o atual cenário sugere que o critério adotado não é a urgência social, mas a conveniência fiscal.






















