Corrupção

“Exames fantasmas” e contrato milionário: clínica investigada vê valor disparar em Nioaque

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Empresa alvo da Operação Auditus II teve aumento de cerca de 9.500% no valor contratado; investigação aponta que 83% dos exames e consultas pagos pelo município teriam sido fraudados

O que começou com um contrato de pouco mais de R$ 43 mil terminou em uma sequência de contratos que ultrapassaram R$ 4,2 milhões. O crescimento milionário dos pagamentos à clínica Prontomed, atualmente denominada Policlínica Rota Bioceânica, está no centro das suspeitas investigadas pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) na Operação Auditus II, deflagrada nesta quinta-feira (13).

A evolução dos valores chama atenção não apenas pelo tamanho do aumento, mas porque ocorre justamente em um período no qual, segundo o Ministério Público, o município de Nioaque teria sido vítima de um esquema de cobrança por consultas e exames que, em parte, nunca teriam sido realizados.

Segundo dados do Portal da Transparência de Nioaque, o primeiro contrato localizado com a empresa foi firmado em agosto de 2018, durante a gestão do então prefeito Valdir Júnior (PSDB). O acordo previa R$ 43,2 mil por 12 meses de prestação de serviços.

No ano seguinte, um novo contrato elevou o valor para R$ 64,8 mil, com vigência até outubro de 2020.

Depois da reeleição do prefeito, entretanto, os valores começaram a subir de maneira expressiva. Um novo contrato chegou a R$ 1,44 milhão, mantendo a prestação dos mesmos serviços de saúde pelo período de um ano.

O salto mais impressionante ocorreu no contrato firmado entre maio de 2022 e maio de 2023. Inicialmente estabelecido em R$ 2.127.960, o acordo recebeu um aditivo em novembro de 2022 e praticamente dobrou, chegando a R$ 4.255.920.

Na comparação com o primeiro contrato, o valor representa um aumento de aproximadamente 9.500%.

Dinheiro público pago por procedimentos que não teriam ocorrido

A suspeita investigada pelo Gecoc torna a disparada dos contratos ainda mais grave.

Nesse tipo de contratação, a prefeitura não deveria simplesmente pagar um valor fixo à empresa. A remuneração ocorre conforme a comprovação dos atendimentos realizados. Isso significa que cada consulta ou exame precisa ser devidamente documentado, conferido e validado pela administração pública antes do pagamento.

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De acordo com as investigações, porém, o sistema teria sido utilizado para alimentar uma fraude.

Documentos falsos teriam sido apresentados para comprovar procedimentos que não foram realizados. Servidores públicos, segundo a investigação, teriam sido cooptados mediante pagamento de propina para validar a documentação e permitir que os pagamentos fossem liberados.

Na prática, conforme apontado pelo Ministério Público, o dinheiro dos cofres públicos teria sido destinado a procedimentos “fantasmas”.

O dado mais alarmante é que as investigações indicam que 83% dos exames e consultas pagos pela Prefeitura de Nioaque seriam fraudulentos.

Se confirmado pela Justiça, o caso revela muito mais do que uma simples irregularidade administrativa: trata-se de uma possível engrenagem de corrupção que teria transformado a estrutura pública de saúde em fonte de recursos para particulares.

Gastos com saúde dispararam 1.713%

O Ministério Público informou que o esquema investigado provocou um aumento de 1.713% nos gastos com serviços médicos durante o período das contratações consideradas fraudulentas, entre 2022 e 2025.

O número ajuda a dimensionar o tamanho do problema.

Enquanto a população depende de consultas, exames e atendimento médico para garantir direitos básicos, recursos que deveriam financiar serviços efetivamente prestados podem ter sido desviados por meio de documentos falsificados e validações irregulares.

A lógica é especialmente preocupante: quanto maior o número de procedimentos lançados no papel, maior seria o valor pago pela prefeitura.

E é justamente nesse ponto que a investigação sobre os chamados “exames fantasmas” se conecta ao crescimento vertiginoso dos contratos.

Ex-secretária de Saúde é presa

Nesta segunda fase da Operação Auditus, o Gecoc cumpriu cinco mandados de prisão e 12 mandados de busca e apreensão em Nioaque, Bonito, Jardim, Bela Vista e Guia Lopes da Laguna.

Entre os presos está Márcia Jara, ex-secretária de Saúde de Nioaque.

A operação recebeu o nome de “Auditus”, palavra em latim relacionada à audição. Um dos procedimentos que teria sido fraudado é justamente a triagem auditiva neonatal, conhecida como teste da orelhinha.

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O caso expõe uma contradição difícil de ignorar: enquanto famílias dependem do sistema público para conseguir atendimento e exames, a investigação aponta para uma possível estrutura que teria usado justamente esses serviços como instrumento para movimentar dinheiro público de forma ilícita.

Quem autorizou e quem fiscalizou?

A investigação também coloca sob escrutínio a atuação dos agentes públicos responsáveis por fiscalizar os contratos.

Não basta descobrir quem recebeu o dinheiro. É preciso esclarecer quem autorizou os pagamentos, quem conferiu os documentos, quem atestou os procedimentos e quem permitiu que contratos milionários fossem ampliados.

A eventual existência de servidores corrompidos, apontada pelo Ministério Público, reforça a necessidade de investigar toda a cadeia de responsabilidades.

A corrupção em contratos públicos raramente acontece de maneira isolada. Quando uma fraude consegue sobreviver por anos e movimentar milhões de reais, a pergunta inevitável é: quantas pessoas precisaram fechar os olhos para que o esquema funcionasse?

Ex-prefeito e clínica ainda não se manifestaram

A reportagem tentou contato com o ex-prefeito Valdir Júnior, responsável pela administração municipal durante parte do período em que os contratos foram firmados e ampliados, mas as ligações não foram atendidas e as mensagens não foram respondidas.

Também foram realizadas tentativas de contato com a Policlínica Rota Bioceânica para obter esclarecimentos de um responsável pela empresa, mas as ligações não foram atendidas.

O espaço permanece aberto para manifestações.

As suspeitas ainda serão analisadas no curso das investigações e pelos órgãos competentes. Eventuais responsabilidades criminais deverão ser definidas pela Justiça, após o devido processo legal e o direito de defesa.

Mas os números, por si só, já levantam um alerta contundente: um contrato que começou em R$ 43 mil chegou a R$ 4,2 milhões enquanto investigadores apontam que a maior parte dos procedimentos pagos poderia nunca ter sido realizada.

Quando o dinheiro destinado à saúde desaparece em contratos inflados e exames que só existem no papel, quem perde é, antes de tudo, o cidadão que paga a conta.

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