Operação Sem Desconto

Fraude bilionária no INSS: operação sem desconto expõe desvio de r$ 6,3 bilhões e envolvimento de líderes religiosos

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Nova fase da operação deflagrada em novembro revela vínculos entre ONGs e igrejas; governo busca reverter danos e promete reembolso automático a aposentados.

 

A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) aprofundaram as investigações da Operação Sem Desconto, que revelou um esquema bilionário de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O rombo estimado é de R$ 6,3 bilhões, com 4,1 milhões de aposentados e pensionistas atingidos por descontos indevidos em seus benefícios.

Deflagrada inicialmente em abril, a operação entrou em nova fase neste mês de novembro, após a análise de dados bancários e fiscais de líderes de entidades e religiosos suspeitos de chefiar a rede. Segundo a PF, parte dos recursos desviados foi lavada por meio de igrejas e empresas de fachada em Brasília e no Entorno do DF.

Brecha Legal Virou Porta para Corrupção

A investigação aponta que o esquema começou a se estruturar a partir de uma lei sancionada em 1991, que autorizava entidades de classe e sindicatos a realizarem descontos diretos nos benefícios previdenciários, desde que houvesse consentimento formal do segurado.
Ao longo dos anos, o mecanismo passou a ser explorado de forma irregular, com assinaturas falsificadas, cadastros inexistentes e autorizações fabricadas digitalmente.

Relatórios da CGU mostram que, em 70% das 29 entidades auditadas, a documentação apresentada ao INSS era incompleta ou inexistente. Em muitos casos, os beneficiários só descobriram os descontos ao comparar extratos mensais.

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Entidades e Personagens no Centro do Escândalo

Entre as 11 entidades investigadas, duas concentram a maior parte das irregularidades: a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) e a Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer).

Na AAB, o presidente Dogival José dos Santos, ex-motorista e líder religioso em Ceilândia, firmou acordo de cooperação com o INSS em 2023. Ele e a esposa, também sócia da associação, tiveram sigilos bancário e fiscal quebrados por determinação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. Dogival nega envolvimento com irregularidades, mas a CGU identificou pedidos de desconto para mais de 27 mil beneficiários já falecidos.

Já na Conafer, o contador Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior e o assessor Cícero Marcelino de Souza Santos são apontados como responsáveis por movimentar R$ 300 milhões em empresas registradas nos mesmos endereços. As firmas, segundo a PF, funcionavam como empresas de fachada para simular prestação de serviços.

Conexões Religiosas e Lavagem de Dinheiro

A nova fase da operação mira o uso de igrejas e templos religiosos como instrumentos de lavagem de dinheiro. A pastora Lucineide dos Santos Oliveira, do Recanto das Emas, é investigada por ter cinco empresas ligadas à Conafer e à AAB, com sede em imóveis sem funcionamento comercial.
Agentes da PF relataram que, em um dos endereços registrados, havia apenas uma pequena congregação evangélica.

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Os investigadores acreditam que os valores eram movimentados por meio de doações fictícias e transferências entre CNPJs religiosos.

Repercussões e Reações do Governo

O impacto político foi imediato. Após a revelação do esquema, o governo exonerou o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e o ex-ministro da Previdência, Carlos Lupi, deixou o cargo.
O Palácio do Planalto anunciou, nesta semana, a criação de um grupo interministerial para auditar todos os acordos de cooperação técnica (ACTs) firmados desde 2019 e para reembolsar automaticamente aposentados que comprovarem descontos indevidos.

O Ministério da Previdência Social também prepara um projeto de lei que revoga a autorização de descontos automáticos em benefícios, exceto para entidades certificadas e auditadas periodicamente.

Vítimas e Próximos Passos

A PF e a CGU estimam que mais de 620 mil aposentados foram afetados apenas pela Conafer no primeiro trimestre de 2024. A orientação oficial é que quem identificar descontos indevidos acesse o aplicativo “Meu INSS” e solicite a exclusão imediata.

A CPMI do INSS deve ouvir, ainda neste mês, novos depoimentos de líderes de entidades religiosas e servidores do instituto. A previsão é de que o relatório final seja apresentado até dezembro, com pedidos de indiciamento de dirigentes de ONGs, empresários e ex-gestores públicos.

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