A tentativa de venda do Banco Master ao BRB revelou um dos episódios mais alarmantes do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos: fundos internacionais sem ativos, sem liquidez e, ao que tudo indica, sem existência material, usados para substituir uma carteira podre estimada em R$ 12,2 bilhões.
Durante diligências realizadas pelo BRB nas Bahamas e na ilha de Jersey, autoridades do banco público constataram o impensável. Os fundos oferecidos pelo Master como lastro da operação simplesmente não possuíam recursos. Em Jersey, desde 2023 não havia saldo algum. Nas Bahamas, não existiam títulos do Tesouro americano, nem ações de grandes empresas e sequer foi permitido acesso integral à composição dos ativos.
Trata-se de uma constatação que ultrapassa o erro gerencial e adentra o território da engenharia financeira fraudulenta, segundo linhas já traçadas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro — no mesmo dia em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
Ativos inexistentes e bilhões “substituídos”
Segundo os investigadores, o Banco Master teria recorrido a empresas de fachada para captar e revender papéis que jamais foram adquiridos, sem desembolsar um único real. Ainda assim, esses ativos foram apresentados como substitutos de uma carteira tóxica originalmente identificada pelo Banco Central durante a análise da venda ao BRB.
Em depoimento prestado à Polícia Federal no STF, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que o Master substituiu a carteira podre por outros ativos no valor de R$ 10 bilhões. Os R$ 2 bilhões restantes estariam em negociação quando o Banco Central interveio e liquidou o banco privado, interrompendo o processo.
O detalhe mais grave: os fundos das Bahamas e de Jersey compunham justamente esses R$ 10 bilhões. Ou seja, parte relevante da suposta compensação era formada por ativos que, na prática, não tinham liquidez nem existência comprovada.
Onde falharam os controles?
O caso levanta uma pergunta incômoda: como fundos internacionais sem ativos puderam integrar uma operação dessa magnitude sem detecção prévia? A resposta aponta para falhas múltiplas privadas e institucionais.
Se, por um lado, há indícios de que o Banco Master estruturou uma operação baseada em ativos fictícios, por outro, o episódio expõe a fragilidade dos mecanismos de due diligence, da supervisão prudencial e da própria governança de operações envolvendo bancos públicos.
O prejuízo final do BRB ainda está em aberto e dependerá da real liquidez dos ativos entregues — tema central do novo depoimento de Paulo Henrique Costa à PF, marcado para 3 de fevereiro.
Disputa institucional e sigilo
A investigação corre sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, relatada pelo ministro Dias Toffoli, enquanto o Tribunal de Contas da União também apura responsabilidades. O ministro Jhonatan de Jesus determinou uma inspeção no Banco Central para examinar os documentos que embasaram a liquidação do Master.
O BC reagiu. Recorreu da decisão alegando que esse tipo de determinação não pode ser monocrática, devendo ser submetida ao colegiado. O recurso reforça o clima de tensão institucional em torno de um caso que já ultrapassou os limites do sistema financeiro e ingressou no campo político e jurídico.
Um alerta que não pode ser ignorado
Independentemente do desfecho judicial, o episódio Master–BRB deixa um alerta cristalino: bilhões de reais circularam em operações sustentadas por ativos sem lastro, envolvendo estruturas offshore, paraísos fiscais e bancos com acesso ao sistema público.
Não se trata apenas de um escândalo bancário. Trata-se de um teste de estresse da credibilidade regulatória brasileira. Se fundos vazios conseguem atravessar fronteiras, auditorias e negociações bilionárias, o problema não é pontual é sistêmico.




















