Gestão Ibaneis ignorou recomendações do MPF e alertas técnicos para que avaliação das carteiras do Banco Master só ocorresse após o fechamento do negócio
Documentos revelam que o governo de Ibaneis Rocha (MDB) no Distrito Federal ignorou sistematicamente recomendações de cautela do Ministério Público Federal (MPF) e alertas técnicos internos ao insistir na tentativa de aquisição da maior parte do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). A estratégia da gestão distrital foi defender que uma auditoria rigorosa sobre a integridade dos ativos só deveria ocorrer após a validação do negócio, contrariando as orientações de órgãos de controle que pediam verificações prévias.
MPF Recomendou Suspensão por Suspeita de Fraude
Em agosto de 2025, o MPF enviou uma recomendação sigilosa ao GDF e ao BRB sugerindo que a transação não fosse levada adiante. Os procuradores apontaram suspeitas de fraudes e incerteza sobre a real existência de ativos declarados pelo Banco Master. O órgão enfatizou que a aquisição não poderia ser concretizada enquanto não houvesse demonstração da fidedignidade e lisura dos ativos, para evitar que recursos públicos absorvessem passivos ocultos.
Apesar do alerta, o governo insistiu na operação. O procurador-geral do DF, Márcio Wanderley de Azevedo, nomeado ao cargo apenas seis dias antes de assinar o documento, admitiu a “gravidade das considerações de risco”, mas argumentou que a própria noção de vantajosidade da operação pressupunha riscos, que seriam “mitigados” posteriormente.
Auditoria “A Posteriori” e Defesa da Operação
O governo Ibaneis defendeu formalmente que a auditoria externa só deveria ser contratada após um eventual aval do Banco Central (BC). O procurador-geral alegou que essa verificação a posteriori visava assegurar “cautela e responsabilidade administrativa”, sob a justificativa de que os custos com auditores só seriam justificáveis se o processo regulatório avançasse.
O BRB também respondeu ao MPF alegando que, sem a chancela do órgão regulador, não teria acesso às informações sigilosas (bancárias e comerciais) do Master necessárias para uma análise completa. Na prática, as instituições afirmavam que só verificariam a consistência das contas do Master quando o negócio já estivesse aprovado.
Alertas Técnicos Internos Desconsiderados
Além da pressão externa do MPF, o governo e a cúpula do BRB ignoraram alertas técnicos da própria instituição. Quatro dias antes de o conselho do banco aprovar a compra de 58% do capital do Master, um parecer do então diretor jurídico do BRB, Jacques Veloso, recomendou atenção crucial aos índices de liquidez e de solvência (Basileia) da instituição a ser adquirida. Mesmo com esse alerta técnico de caráter orientador, o conselho do BRB, sob gestão de Paulo Henrique Costa, aprovou o negócio, estimado em R$ 2 bilhões, naquela mesma semana.
Desfecho e Impactos Financeiros
A insistência do governo Ibaneis foi interrompida pelo Banco Central, que barrou a compra em setembro de 2025. Pouco tempo depois, a operação Compliance Zero da Polícia Federal revelou indícios de que os ativos do Banco Master haviam sido fraudulentamente “inflados” em seus balanços.
Investigações posteriores indicam que o BRB já havia desembolsado valores bilionários em ativos problemáticos do Master, gerando prejuízos à estatal e abalando sua situação patrimonial. O governador Ibaneis Rocha, que fez defesas públicas da compra mesmo após o veto do BC, nega ter tratado de operações específicas com o dono do Master, Daniel Vorcaro, embora o banqueiro tenha afirmado em depoimento à PF que tratou da venda diretamente com o governador em encontros pessoais.
























