"disputa de fé"

Herculano Borges tenta ‘golpe’ no Conselho de Pastores mirando votos da Marcha para Jesus

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A linha divisória entre religião e pragmatismo eleitoral fica cada vez mais difusa em Mato Grosso do Sul.

Nos corredores de fundações governamentais, em autarquias estaduais e nas ante-salas do Poder Legislativo, articulações políticas passaram a tratar a influência religiosa como ativo eleitoral de alto valor.

O epicentro dessa disputa atende pelo nome de Conselho Estadual de Pastores de Mato Grosso do Sul (CONSEPAMS), entidade criada para comunhão religiosa, mas que hoje enfrenta denúncias de aparelhamento político, irregularidades estatutárias, disputa por poder interno e suspeitas envolvendo cargos públicos.

Esta reportagem mostra como estruturas da máquina pública estadual passaram a ser utilizadas em meio à disputa pelo eleitorado evangélico nas eleições de 2026.

De um lado está a atual gestão do CONSEPAMS, comandada pelo pastor Wilton Melo Acosta, ex-gestor de órgãos públicos e figura ligada ao bolsonarismo em Mato Grosso do Sul. Acosta carrega uma condenação judicial por improbidade administrativa em caso envolvendo desvio de recursos do extinto Banco do Povo.

Do outro lado está um grupo político articulado pelo ex-deputado estadual Herculano Borges, que tenta levar o Bispo Roger à presidência do conselho.

Roger ocupa cargo ligado ao Governo do Estado e, segundo denúncias e relatos obtidos pela reportagem, atuaria mais em agendas políticas e religiosas no interior do que em funções administrativas vinculadas ao posto que ocupa.

O centro da disputa é o controle da Marcha para Jesus, principal evento de massa do segmento evangélico no estado.

Quem controla o CONSEPAMS influencia diretamente a estrutura do evento, a participação de autoridades políticas, os discursos no palco e a exposição pública diante de milhares de fiéis.

O que emerge dessa disputa é um cenário em que religião, máquina pública e articulação eleitoral passaram a operar de maneira cada vez mais sobreposta.

“VOTO DE CAJADO”

Para entender a intensidade da disputa pelo CONSEPAMS, é necessário olhar para o tamanho do eleitorado evangélico em Mato Grosso do Sul, especialmente em Campo Grande.

Levantamentos eleitorais apontam que 36% do eleitorado da capital se declara evangélico. Em números absolutos, isso representa cerca de 173.303 eleitores dentro de um universo de 481.399 votantes em eleições municipais recentes.

Trata-se de um contingente eleitoral altamente organizado e tradicionalmente influenciado por lideranças religiosas.

O púlpito virou espaço de mobilização política. Diferentemente do eleitor flutuante, o fiel muitas vezes recebe recomendações políticas associadas à autoridade moral e espiritual de seus líderes. É o chamado “voto de cajado”.

Políticos de diferentes grupos sabem que entrar nesse segmento sem apoio institucional das lideranças religiosas é tarefa difícil.

O cenário de 2026 já começa a ser desenhado sob essa lógica.

Pesquisa do instituto Real Time Big Data mostra o governador Eduardo Riedel liderando a corrida eleitoral com 43% das intenções de voto, seguido por Fábio Trad, com 21%, e João Henrique Catan, com 11%.

Com a disputa majoritária aparentemente mais estabilizada, a guerra política se desloca para as vagas proporcionais. É nesse ambiente que o CONSEPAMS ganha valor estratégico.

Deputados estaduais não precisam conquistar a maioria do eleitorado. Precisam dominar nichos organizados. E poucos grupos são tão disciplinados e territorialmente estruturados quanto o eleitorado evangélico.

A disputa por esse segmento já provocou confrontos políticos em eleições passadas, envolvendo candidaturas como as de Adriane Lopes e Rose Modesto.

No Legislativo, nomes como Papy, Neto Santos, Clodoilson Pires e o próprio Herculano Borges disputam espaço dentro das mesmas igrejas e bairros.

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Controlar o Conselho Estadual de Pastores significa ampliar influência sobre centenas de igrejas espalhadas pela capital e pelo interior.

É isso que transformou a entidade religiosa em alvo de disputa política.

“MARCHA PARA JESUS”

O principal ativo dessa disputa é a Marcha para Jesus.

O evento, que nasceu como manifestação pública de fé cristã, tornou-se também um espaço de enorme exposição política.

Em nível nacional, a Marcha já reúne milhões de pessoas e mobiliza grandes estruturas em cidades como São Paulo.

Em Mato Grosso do Sul, a Marcha foi incorporada ao calendário de aniversário de Campo Grande, celebrado em 26 de agosto.

Isso amplia o envolvimento do poder público na logística do evento: estrutura de palco, fechamento de ruas, segurança, policiamento e suporte operacional.

Além da capital, a Marcha também ocorre em municípios do interior.

Em cidades como Água Clara, o evento já reuniu caravanas e artistas conhecidos do meio gospel, como David Martin Quinlan.

Quem assume o comando do CONSEPAMS passa a ter influência direta sobre a organização desses encontros.

O presidente do conselho ajuda a definir convidados, lideranças que terão espaço no palco, rotas do evento e interlocução institucional com governos e prefeituras.

É justamente aí que a disputa política ganha peso.

O grupo ligado a Herculano Borges tenta assumir a direção da entidade antes do período eleitoral mais intenso de 2026.

Com Bispo Roger no comando do conselho, a Marcha para Jesus passaria a funcionar como uma vitrine política ainda mais estratégica.

Se conseguir retirar Wilton Acosta da presidência, Herculano amplia sua capacidade de exposição diante de milhares de eleitores evangélicos simultaneamente, enquanto adversários perderiam espaço dentro do principal evento religioso do estado.

‘CAPIVARA DE WILTON ACOSTA’

A crise interna do CONSEPAMS também expôs o histórico administrativo do atual presidente da entidade, o pastor Wilton Melo Acosta.

Filiado ao Republicanos, Acosta consolidou sua trajetória política ocupando cargos comissionados em órgãos públicos estaduais.

Antes de comandar o extinto Banco do Povo, presidiu a Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul.

Foi justamente durante sua passagem pelo Banco do Povo — depois rebatizado como Banco Cidadão e, posteriormente, CredQuali — que surgiram as acusações de improbidade administrativa.

Segundo investigação do Ministério Público acolhida pela Justiça, recursos que deveriam financiar programas de microcrédito foram desviados para despesas particulares.

O juiz Ariovaldo Nantes Corrêa concluiu que houve uso irregular de dinheiro público para compra de um veículo destinado ao filho do pastor, Lucas Rael Alves Acosta, além de gastos com confraternizações religiosas.

A sentença determinou:

* ressarcimento de R$ 6.800;
* multa civil de R$ 7.400;
* indenização por danos morais coletivos de R$ 30 mil;
* proibição de contratar com o poder público por seis anos.

Lucas Rael Acosta também foi condenado a devolver R$ 2.300 e pagar multa civil de R$ 5.789.

Já o ex-diretor da CredQuali, Rosinildo Aparecido de Oliveira, foi condenado ao ressarcimento de R$ 1.157 e multa de R$ 2.894.

A condenação fragilizou politicamente Wilton Acosta dentro do próprio conselho e abriu espaço para a ofensiva liderada pelo grupo de Herculano Borges.

“FANTASMA DA FUNDESPORTE”

Se a atual direção do CONSEPAMS enfrenta desgaste por causa da condenação judicial de seu presidente, o grupo adversário também é alvo de denúncias.

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Bispo Roger ocupa cargo ligado à Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte) e aparece em eventos oficiais representando o governo estadual.

Entretanto, relatos obtidos pela reportagem apontam que sua atuação estaria concentrada em agendas políticas e religiosas no interior do estado.

Segundo as denúncias, Roger viaja frequentemente para encontros com lideranças evangélicas, cultos e articulações regionais ligadas ao fortalecimento político de Herculano Borges.

Críticos do grupo afirmam que a estrutura pública estaria sendo utilizada para finalidades político-eleitorais, o que poderia configurar desvio de função.

As acusações também levantam dúvidas sobre o grau de representatividade do Bispo Roger dentro dos conselhos municipais de pastores espalhados pelo estado.

“TITEREIRO CONSERVADOR”

Para entender o interesse na disputa pelo CONSEPAMS, é preciso olhar para a trajetória política de Herculano Borges.

Ao longo da carreira, o deputado construiu sua base eleitoral associada a pautas conservadoras e religiosas.

Filiado atualmente ao Republicanos, já passou por partidos ligados ao chamado Centrão, como o Solidariedade.

Na Assembleia Legislativa, ocupou cargos de influência, incluindo a 2ª Secretaria da Mesa Diretora.

Herculano também esteve entre os principais defensores do programa “Escola sem Partido” em Campo Grande e consolidou presença entre lideranças evangélicas por meio de pautas ligadas à infância e costumes.

Entre suas principais bandeiras está a Lei 5118/2017, que instituiu o Maio Laranja em Mato Grosso do Sul.

Apesar disso, aliados e adversários reconhecem que apenas o discurso conservador já não garante hegemonia no segmento evangélico.

O controle de estruturas como o CONSEPAMS passou a ter peso estratégico na disputa eleitoral.

“GOLPE DE ABRIL”

A tentativa de mudança no comando do conselho ocorreu em 11 de abril de 2026.

O grupo ligado ao Bispo Roger realizou uma assembleia na sede da União de Câmaras de Vereadores de Mato Grosso do Sul (UCVMS), onde declarou a destituição da atual diretoria e anunciou Roger como novo presidente da entidade.

A atual gestão contestou imediatamente a validade da reunião.

Segundo Wilton Acosta e aliados, o mandato segue vigente até o fim de 2026 e não existiria vacância formal da presidência.

Dois dias depois, em 13 de abril, conselhos municipais de pastores divulgaram uma nota pública de repúdio contra a assembleia.

O documento apontou:

* ausência de quórum mínimo;
* falhas de convocação;
* falta de legitimidade dos participantes;
* descumprimento do estatuto;
* inexistência de vacância da diretoria.

Os conselhos afirmaram que a assembleia seria juridicamente nula.

A tentativa de mudança no comando acabou aprofundando a divisão interna do CONSEPAMS.

RUPTURA INSTITUCIONAL

O conflito foi parar na Justiça.

Hoje, duas alas disputam o controle administrativo da entidade, incluindo acesso ao CNPJ, movimentações financeiras e legitimidade institucional.

De um lado está Wilton Acosta, sustentado pelo estatuto ainda vigente. Do outro, o grupo do Bispo Roger, respaldado pela assembleia realizada na UCVMS.

A judicialização travou decisões internas e criou insegurança sobre contratos, convênios e organização da Marcha para Jesus.

Sem definição jurídica clara, órgãos públicos evitam assumir compromissos mais amplos com a entidade.

A crise também expôs algo maior: a crescente mistura entre estruturas religiosas, articulação eleitoral e influência estatal em Mato Grosso do Sul.

O resultado é um ambiente em que eventos religiosos passaram a funcionar também como arenas de disputa política, enquanto lideranças religiosas disputam espaço, influência institucional e acesso ao eleitorado evangélico para 2026.

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