A metade da noite desta quarta-feira (12), com inicio por volta das 21 horas, Campo Grande mergulhou em um cenário que mesclava caos urbano, desamparo estrutural e vulnerabilidade social. A chuva cai por toda cidade, mas foi mais forte em tempestade caindo em partes sobre a Capital Sul-mato-grossense, que não apenas expôs a fúria natural de ventos de 45 km/h e quase 100 milímetros de chuva em poucas horas — como também descortinou, com brutal clareza, o despreparo histórico do município diante dos desafios ambientais do presente.
Cenas que deveriam habitar os domínios da ficção climática tomaram conta de ruas e avenidas: carros foram tragados pelas águas em vias até centrais, no ou próximo ao grande Centro da cidade, como na Rua Chaadi Scaff com a Joaquim Murtinho. Bem como, o motociclista resgatado na Avenida Ernesto Geisel com Euler de Azevedo, onde até se tornou símbolo da vulnerabilidade cotidiana, da região que fica ‘embaixo d’água’,
A situação na noite de ontem, também teve as árvores tombadas, semáforos inoperantes, energia interrompida na Vila Fernanda e ruas convertidas em rios, no Centro e principalmente nos bairros, como no Jardim Columbia, que completaram o retrato da catástrofe. O Córrego Segredo, que transbordou violentamente, foi mais do que um acidente hidrológico: foi o reflexo do transbordamento do abandono de políticas públicas eficazes para o manejo urbano das águas.
No bairro Chácara dos Poderes, ruas sem asfalto viraram atoleiros. Na ainda dita Comunidade Esperança, na região do Noroeste, a água invadiu barracos e expôs a desigualdade estrutural: o impacto do mesmo fenômeno climático não é igual para todos.
Colapso do sistema urbano e inércia histórica
A média histórica de chuva para o mês de novembro em Campo Grande é de 206 mm. Em apenas 24 horas, mais de 93 mm foram registrados — 45% do volume esperado para o mês inteiro. A cidade, no entanto, parece não estar equipada sequer para enfrentar volumes médios. Segundo o Cemaden, o evento pluviométrico foi intenso, mas previsível.
A tragédia, portanto, não é natural: é resultado da negligência crônica com o planejamento urbano e da manutenção deficitária do sistema de drenagem.
Campo Grande não é exceção. Como destaca a urbanista e pesquisadora Ermínia Maricato, da Universidade de São Paulo, “o padrão de urbanização nas cidades brasileiras está vinculado a um modelo de exclusão social e especulação fundiária. As áreas mais frágeis da cidade — próximas a córregos, áreas de encosta ou sem infraestrutura — são destinadas aos mais pobres. Os desastres são anunciados”.
Cidades contra a história
A recorrência dos temporais — este é o terceiro em menos de 15 dias — deveria acionar a memória coletiva e política de Mato Grosso do Sul. Em 2020, eventos similares já haviam causado transtornos, e um estudo publicado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul alertava para a sobrecarga no sistema de drenagem pluvial da capital, em especial na região dos córregos Anhanduí e Segredo.
A falta de investimentos em infraestrutura urbana e a ausência de um plano diretor resiliente às mudanças climáticas colocam a cidade em rota de colisão com o futuro.
Não se trata apenas de meteorologia, mas de governança. A precariedade no saneamento, a impermeabilização desenfreada do solo urbano, a omissão na fiscalização ambiental e o planejamento urbano voltado à lógica do lucro — não à vida — compõem o pano de fundo sociopolítico de uma tragédia em série.
Um futuro sob risco
A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima (Cemtec) não é otimista. Toda a região de Campo Grande permanece sob alerta laranja até a noite de sexta-feira (14), com possibilidade de mais de 100 mm de chuva em algumas áreas, ventos de até 100 km/h e risco de granizo. O alerta de nível laranja abrange 66 municípios; o alerta amarelo, mais 20 — somando 86 cidades sob risco.
A formação de áreas de baixa pressão atmosférica, o transporte de calor e umidade e a chegada de uma frente fria oceânica intensificam a instabilidade, que deve persistir até sábado (15). O alerta é claro: há risco de alagamentos, quedas de árvores, cortes de energia elétrica e perdas em plantações.
Como buscar ajuda
A Defesa Civil de Campo Grande, a Guarda Civil Metropolitana, o Corpo de Bombeiros e a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) informaram que estão em ação para desobstrução de vias, limpeza de bocas de lobo, retirada de galhos e monitoramento de pontos de alagamento. Mais de 200 locais já foram mapeados após os dois últimos temporais.
Os canais oficiais para emergências continuam disponíveis:
Defesa Civil – 199
Corpo de Bombeiros – 193
Solicitação de serviços públicos – 156
A Cedesc (Coordenadoria Estadual de Defesa Civil) também emite alertas via SMS para celulares cadastrados no número 40199.
Cidade resiliente ou cidade refém?
A pergunta que se impõe à administração municipal e à sociedade civil é: Campo Grande será uma cidade resiliente ou permanecerá refém de sua inércia estrutural?
Como advertia Ulrich Beck, em sua obra seminal Sociedade de Risco (1986), “a modernização produz novos riscos, e as instituições políticas, ao tentarem resolvê-los com os instrumentos do passado, apenas os agravam.” Enfrentar os desastres climáticos não é apenas uma questão técnica, mas um imperativo ético e político.
A água que corre nas ruas de Campo Grande arrasta, junto com veículos e árvores, a ilusão de que é possível adiar indefinidamente as reformas estruturais. A tempestade, portanto, é apenas o prenúncio — o verdadeiro desafio começa quando a chuva cessa e a lama permanece.
Fonte : Semana ON























