Enquanto o Distrito Federal enfrenta falta de medicamentos, hospitais endividados e serviços básicos em colapso, a vice-governadora Celina Leão decidiu apostar em uma promessa de alto impacto midiático: estudar a incorporação do medicamento Mounjaro uma das chamadas “canetas emagrecedoras” na rede pública de saúde do DF. A proposta, anunciada em meio à pré-campanha eleitoral ao governo, esbarra em um obstáculo incontornável: o custo bilionário e a inviabilidade já reconhecida pelo próprio sistema de saúde.
De acordo com o Ministério da Saúde, a incorporação desse tipo de medicamento no SUS teria impacto de até R$ 8 bilhões por ano em nível nacional, valor que representa quase o dobro do orçamento do programa Farmácia Popular previsto para 2025. Não por acaso, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) já emitiu parecer desfavorável à proposta em agosto do ano passado, justamente por considerar o custo proibitivo. A informação foi divulgada pelo site Metrópoles.
Mesmo diante desse cenário, Celina Leão insiste em vender a ideia de um “kit emagrecedor” para a população, como se o Distrito Federal tivesse folga orçamentária para bancar tratamentos contínuos de alto custo. Uma única caixa mensal de Mounjaro custa entre R$ 1.907 e R$ 2.384. Multiplicado por milhares de pacientes, o impacto explode rapidamente, tornando a proposta incompatível com a realidade fiscal do DF.
A vice-governadora argumenta que o investimento geraria economia futura, reduzindo cirurgias bariátricas e prevenindo infartos. Do ponto de vista médico, o raciocínio pode até fazer sentido. Do ponto de vista da gestão pública, é uma abstração perigosa. O DF vive um quadro de endividamento crônico, hospitais acumulam contas atrasadas, funcionários de creches estão sem receber salários, projetos sociais foram interrompidos e faltam medicamentos básicos nas unidades de saúde. Falar em tratamento bilionário nesse contexto soa menos como política pública e mais como desconexão da realidade.
Medicamentos semelhantes, como Ozempic e Saxenda, já foram avaliados pela Conitec e tiveram a mesma conclusão: o sistema público não tem estrutura financeira para bancar esse tipo de tratamento em larga escala. Ainda assim, Celina Leão prefere ignorar os pareceres técnicos e acenar com uma promessa popular, sem explicar de onde virá o dinheiro nem quais áreas sofrerão novos cortes para viabilizá-la.
Até agora, apenas Rondônia aprovou projeto semelhante e mesmo lá a iniciativa ainda depende de sanção e de viabilidade prática. Não há consenso nacional, nem comprovação de sustentabilidade financeira. A própria Secretaria de Saúde do DF admitiu que os estudos técnicos ainda estão começando e que não existem critérios, protocolos ou fontes de financiamento definidos.
O que existe, de fato, é o calendário eleitoral. Mounjaro virou febre entre quem pode pagar, rende manchetes positivas e ajuda a construir uma imagem de gestão “moderna” e “inovadora”. Mas, na prática, trata-se de propaganda disfarçada de política pública, lançada no momento mais conveniente, enquanto o básico segue sem funcionar.
Prometer bilhões para o que é popular, enquanto falta dinheiro para o essencial, não é ousadia administrativa. É irresponsabilidade. E o eleitor do Distrito Federal precisa saber diferenciar promessa de campanha de política pública séria.
























