A crise no transporte público do Distrito Federal ganhou novos contornos políticos após a Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (Ceof) da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovar a convocação da secretária de Transporte e Mobilidade, Sandra Maria Holanda França. A medida ocorre em meio ao aumento das reclamações dos usuários, cortes orçamentários promovidos pelo Governo do Distrito Federal (GDF) e denúncias sobre a circulação de ônibus que já ultrapassaram há anos o limite máximo de vida útil previsto em contrato.
O requerimento, apresentado pelo deputado distrital Eduardo Pedrosa (União Brasil), busca esclarecer como a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) pretende enfrentar o que parlamentares classificam como uma deterioração progressiva da qualidade do serviço. A convocação também pretende obter explicações sobre os impactos do ajuste fiscal anunciado pelo governo, que determinou redução de até 25% em contratos administrativos e suspendeu reajustes em diversas áreas.
Enquanto o governo busca equilibrar as contas públicas, os usuários enfrentam uma realidade marcada por atrasos, superlotação e insegurança. Dados da Ouvidoria do DF apontam que mais de 8,4 mil reclamações relacionadas ao transporte coletivo foram registradas apenas nos primeiros cinco meses do ano, evidenciando o agravamento dos problemas enfrentados diariamente pela população.
Frota envelhecida preocupa
Um dos principais focos de preocupação envolve a situação da Viação Marechal. Relatórios técnicos apontam que 147 ônibus da empresa continuam em operação mesmo após ultrapassarem o limite de idade permitido pelo sistema de transporte coletivo do DF.
Pelas regras vigentes, veículos classificados como “básicos” deveriam ser substituídos após sete anos de uso. No entanto, parte da frota em circulação foi fabricada entre 2013 e 2014 e já acumula mais de um milhão de quilômetros rodados.
A própria Semob reconheceu ter autorizado a permanência desses veículos até o final de 2026, em caráter excepcional. Segundo a secretaria, a medida foi adotada para evitar a interrupção de linhas que atendem regiões de grande demanda, como Ceilândia, Taguatinga e Guará, diante do atraso da concessionária na renovação da frota.
Para especialistas em mobilidade e parlamentares da oposição, a decisão evidencia um dilema preocupante: manter veículos antigos circulando ou correr o risco de reduzir ainda mais a oferta de transporte para milhares de passageiros.
Problemas vão além dos ônibus
O diagnóstico apresentado na CLDF mostra que as dificuldades do sistema não se restringem à frota rodoviária. O documento aprovado pela Ceof destaca a falta de investimentos estruturais no transporte público do DF, incluindo o sistema metroviário.
Além da redução no número de passageiros transportados pelo Metrô, os parlamentares apontam que o crescimento acelerado da frota de veículos particulares que já supera 1,7 milhão de automóveis registrados no DF, tem agravado os congestionamentos e aumentado a pressão sobre uma infraestrutura considerada insuficiente.
Usuários também relatam problemas frequentes relacionados à superlotação, à falta de segurança nos terminais e à precariedade de parte dos veículos em circulação. Fiscalizações recentes identificaram ônibus com problemas estruturais, além de condições inadequadas de limpeza e conservação.
Governo defende medida emergencial
Em resposta às críticas, a Semob afirma que o atraso na renovação da frota decorre de dificuldades enfrentadas pelas fabricantes e encarroçadoras na entrega de novos veículos. A pasta sustenta que a manutenção temporária dos ônibus mais antigos foi necessária para garantir a continuidade do serviço e evitar prejuízos ainda maiores aos passageiros.
Segundo a secretaria, todos os veículos autorizados a permanecer em circulação passam por inspeções periódicas realizadas pela Subsecretaria de Fiscalização, com vistorias a cada 60 dias.
Mesmo assim, a convocação aprovada pela CLDF demonstra que os esclarecimentos apresentados até agora não foram suficientes para dissipar as preocupações dos parlamentares. A expectativa é que a audiência com a secretária Sandra Holanda sirva para detalhar quais medidas concretas serão adotadas para recuperar a qualidade do transporte público e evitar que a crise se aprofunde nos próximos meses.
A data do comparecimento ainda será definida pela comissão.





















