Um contrato de R$ 359,8 milhões, firmado sem licitação pela Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), colocou sob questionamento a relação entre o secretário Juliano Silva Melo, sua esposa e a instituição beneficiada pelo acordo. As informações foram divulgadas pelo site VG Notícias, que levantou a documentação e os vínculos envolvidos na contratação.
Segundo a apuração do VG Notícias, no mesmo dia em que a nomeação de Juliano para comandar a SES-MT foi publicada, em 2 de abril de 2026, ele aparece como representante da secretaria na assinatura do Contrato nº 046/2026/SES/MT, firmado com o Instituto São Lucas, responsável pela gestão do Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro, em Nova Mutum.
O contrato foi realizado por inexigibilidade de licitação e possui vigência de 24 meses, com valor total de R$ 359.816.348,40. O documento oficial publicado no Diário Oficial identifica expressamente Juliano Silva Melo como representante da SES-MT.
Hospital aparece como cliente da empresa da esposa
O ponto central da apuração está na relação entre o hospital e a Machen Consultoria em Serviços de Engenharia Ltda., empresa que tem Michelly Lustri Fabre de Figueiredo, esposa do secretário, como sócia-administradora.
Conforme o material divulgado pelo VG Notícias, a própria Machen apresenta o Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro entre seus clientes. A empresa afirma ter prestado serviços de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) para aproximadamente 530 funcionários da unidade.
Com isso, a apuração aponta para uma sobreposição de relações: o hospital administrado pelo Instituto São Lucas aparece como cliente da empresa da esposa do secretário e, ao mesmo tempo, passa a ser unidade vinculada a um contrato de quase R$ 360 milhões com a secretaria comandada por ele.
O VG Notícias ressalta, contudo, que esses elementos, isoladamente, não comprovam ilegalidade. A combinação dos vínculos é que levanta questionamentos sobre eventual conflito de interesses.
Contratação direta movimentará quase R$ 15 milhões por mês
O contrato prevê serviços ambulatoriais e hospitalares de média e alta complexidade, além de atendimento de urgência e emergência em regime de 24 horas.
Pelo acordo, o Instituto São Lucas será responsável pela prestação, operacionalização e gestão dos serviços do Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro. O valor global, dividido pelos 24 meses de vigência, representa aproximadamente R$ 14,99 milhões por mês.
A contratação teve origem no processo SES-PRO-2025/89838, iniciado em 2025, período em que Juliano ainda não era secretário titular, mas já ocupava posição de destaque na estrutura da SES-MT, como secretário adjunto de Atenção e Vigilância à Saúde.
A modalidade utilizada foi a inexigibilidade, prevista na legislação para situações em que a competição é considerada inviável. A própria apuração destaca que a utilização dessa modalidade, por si só, não significa irregularidade.
Empresa da esposa também aparece em atividades relacionadas ao Lacen
Outro ponto levantado pelo VG Notícias envolve a atuação da Machen Consultoria no Laboratório Central de Saúde Pública de Mato Grosso (Lacen-MT).
Segundo a reportagem, a própria empresa divulga ter realizado trabalho relacionado ao laboratório, incluindo auditoria interna e revisão de documentos e processos. O material também aponta que Michelly e Juliano são coautores de um trabalho científico relacionado ao Lacen e à análise de exames para diagnóstico de dengue.
A SES-MT, porém, contesta a interpretação. Em resposta, afirmou que não existe vínculo contratual ou relação formal entre o Lacen e a Machen Consultoria e explicou que a atuação de Michelly ocorreu no âmbito de sua atividade acadêmica no Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
SES-MT nega conflito de interesses
Procurada pelo VG Notícias, a Secretaria de Estado de Saúde afirmou que a relação contratual com o Instituto São Lucas é anterior a 2020 e teria sido fortalecida durante a pandemia, quando o hospital passou a ofertar leitos ao Estado.
Segundo a SES-MT, posteriormente foi realizado estudo para avaliar a ampliação dos serviços oferecidos pelo Instituto São Lucas ao Sistema Único de Saúde. A pasta afirma que, após a conclusão da análise, o contrato foi assinado em abril de 2026 e que a inexigibilidade ocorreu em razão das especificidades do objeto e da inviabilidade de competição.
A secretaria também classificou como grave a acusação de conflito de interesses baseada apenas na relação conjugal entre Juliano e Michelly, sustentando que não foram apresentados elementos concretos que demonstrem interferência ou favorecimento.
Questionamentos permanecem
Entre os questionamentos encaminhados ao secretário estavam se ele tinha conhecimento da relação comercial entre a Machen e o Hospital Hilda Strenger Ribeiro, se participou da negociação ou aprovação da contratação, se comunicou formalmente eventual conflito de interesses e por que não teria se declarado impedido.
Também foram solicitadas informações sobre a atuação da Machen no Lacen e sobre eventuais outros contratos da empresa com instituições ligadas à SES-MT durante o período em que Juliano ocupou cargos na secretaria.
A SES afirmou ainda que não teria sido procurada antes da publicação da matéria e que recebeu os pedidos de esclarecimento somente após a veiculação do conteúdo. O VG Notícias, por sua vez, registrou que o espaço permanece aberto para manifestações.
O caso chama atenção pelo valor elevado do contrato, pela contratação direta, pela posição ocupada pelo secretário na estrutura da Saúde e pela relação comercial divulgada entre o hospital e a empresa administrada por sua esposa. Até o momento, conforme o material analisado, não há conclusão de ilegalidade, mas os fatos levantados justificam questionamentos sobre transparência, impedimento e eventual conflito de interesses.



















