A segunda-feira (13) já é aberta com a triste notícia de mais um, o 30º Feminicídio oficial, registrado como tal, em 2025, no Mato Grosso do Sul. A vítima desta vez foi Andreia Ferreira, de 40 anos, morta a tiros pelo próprio marido, Carlos Alberto da Silva, 38. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos que atingiram nuca e pescoço. O homicídio com agravante da violência de gênero, vem tendo ainda na capa do Pauta Diária sobre o “29º Feminicídio em MS tem mulher morta com duas facadas”, na última sexta-feira.
O crime ocorreu na tarde deste domingo (12), na pequena cidade de Bandeirantes, a 58 km de Campo Grande. O assassinato aconteceu dentro da residência do casal e diante da filha da vítima, uma adolescente. O crime é o 30º feminicídio registrado no MS, neste ano, consolidando um cenário alarmante de violência de gênero no Estado. Assim, MS se consolida na lamentável e lastimável situação de estar entre as duas primeiras posições no Brasil.
Segundo a PC-MS (Polícia Civil de MS), a vítima já havia denunciado o agressor em 2023 e novamente em 2024 por violência doméstica, mas Carlos continuava em liberdade. Na tarde de ontem, o casal participou de um terço religioso, retornando em seguida para casa, onde iniciou-se uma discussão. A filha da vítima estava na casa junto com o namorado. Eles teriam entrado na residência a pedido do suspeito. A menina chegou a tentar estancar o sangue da mulher após os tiros
De acordo com relatos, segundo a polícia, Andrea foi quem quebrou o vidro traseiro do veículo e furou os quatro pneus, além de jogar pedras no carro. Carlos então chamou a enteada e o namorado dela para entrarem na residência. Foi nesse momento que ele sacou a arma e disparou contra Andreia, fugindo logo depois. Até o momento, segue foragido.
O então último Feminicídio
Três dias antes, em Paranaíba, Erivelte Barbosa Lima de Souza, 48, também foi assassinada pelo companheiro, a facadas. O autor foi preso em flagrante. Ambas integram uma lista que, em 2025, já contabiliza 30 mulheres mortas de forma brutal por parceiros ou ex-companheiros no Mato Grosso do Sul — número que equivale, em média, a três feminicídios por mês no estado.
Violência persistente e denúncias ignoradas
O caso de Andreia chama atenção pelo padrão repetido de negligência institucional diante de denúncias anteriores. Apesar dos registros contra o agressor, não houve ação efetiva de proteção à vítima. Esse padrão, infelizmente, não é exceção.
Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), ao menos 68% das vítimas de feminicídio no Brasil haviam sofrido violência anterior, muitas vezes denunciada, mas ignorada.
O Mato Grosso do Sul figura entre os estados com maiores taxas de feminicídio proporcionalmente à população. Em 2024, o estado ocupava a 2ª posição nacional, com uma taxa de 2,5 mortes a cada 100 mil mulheres, segundo dados do Anuário do FBSP. A situação tem se agravado desde então.
A repetição de casos como o de Andreia aponta para falhas estruturais na proteção às mulheres. Ainda que existam dispositivos legais como a Lei Maria da Penha (11.340/2006) e a tipificação do feminicídio no Código Penal desde 2015, sua aplicação efetiva continua distante da realidade da maioria das mulheres brasileiras — especialmente nas cidades do interior, onde a rede de proteção é mais frágil.
Onde buscar ajuda — e onde denunciar omissões
Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira oferece atendimento 24h e reúne no mesmo espaço Defensoria Pública, Ministério Público, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), apoio psicológico e abrigo. O número 180 é o canal nacional para denúncias e orientação, com garantia de anonimato. Para situações de emergência, o número é 190.
Mulheres em situação de risco em Mato Grosso do Sul também podem buscar ajuda nas Deams distribuídas em 13 municípios do interior. Denúncias de negligência ou má conduta por parte de policiais civis podem ser encaminhadas à Corregedoria da Polícia Civil (67 3314-1896) ou ao GACEP do MPMS (67 3316-2836).
A conta das mortes
A cada novo caso, reforça-se a constatação de que o feminicídio é previsível — e, portanto, evitável. Andreia Ferreira não foi apenas assassinada por um homem armado. Foi morta por um sistema que permitiu que, mesmo após denúncias, ele continuasse ao seu lado.
E assim como ela, Karina, Vanessa, Juliana, Emiliana, Simone, Letícia, Dayane e tantas outras — 30 mulheres apenas em 2025 — engrossam a estatística de uma guerra silenciosa contra as mulheres. Silenciosa para quem não quer ouvir.





















