A crise política entre a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, e o ex-governador Ibaneis Rocha ganhou contornos públicos e definitivos nesta semana, após declarações duras trocadas entre os dois líderes políticos que, até pouco tempo, dividiam o mesmo projeto de poder no Palácio do Buriti.
Em resposta às críticas feitas por Ibaneis, que afirmou estar acumulando “muitas decepções” com a atual gestão e defendeu um “realinhamento” político no grupo governista, Celina reagiu de forma firme e simbólica. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, a governadora afirmou que “sucessão nunca será submissão”, deixando claro que pretende conduzir o Governo do Distrito Federal com autonomia própria e sem interferências do antigo aliado.
A fala foi interpretada nos bastidores como o marco oficial do rompimento político entre os dois grupos e uma tentativa de Celina de consolidar uma identidade administrativa independente da gestão anterior.
Segundo a governadora, embora tenha exercido a vice-governadoria com lealdade e discrição durante o mandato de Ibaneis, a responsabilidade atual exige outra postura. “Hoje eu não sou mais vice-governadora, eu sou governadora”, declarou, reforçando que as decisões do atual governo serão tomadas com base na realidade financeira e administrativa encontrada por sua equipe.
Crise fiscal e BRB no centro da disputa
O principal foco do embate envolve a situação financeira herdada pela nova gestão. Celina afirmou ter recebido um cenário de forte desequilíbrio fiscal, incluindo um déficit orçamentário bilionário e uma grave crise envolvendo o Banco de Brasília.
De acordo com integrantes do atual governo, o rombo nas contas públicas pode alcançar R$ 42,7 bilhões, obrigando o Executivo a rever medidas adotadas anteriormente. Entre elas estão a suspensão do plano de venda de imóveis públicos e a revogação da autorização para que o BRB adquirisse participação no Banco Master, operação que se transformou em um dos principais focos de desgaste político e financeiro do banco estatal.
A governadora argumentou que as decisões tomadas até agora podem gerar desgaste político, mas seriam necessárias para preservar a responsabilidade fiscal e evitar agravamento da crise administrativa.
Lealdade redefinida
Durante o pronunciamento, Celina também procurou redefinir o conceito de lealdade política. Sem citar diretamente Ibaneis em alguns momentos, ela afirmou que fidelidade não significa silêncio diante de problemas estruturais.
Segundo a governadora, a verdadeira lealdade está ligada ao compromisso com os princípios, com a transparência e com a população do Distrito Federal. “Lealdade é não trair os seus princípios, não fugir da verdade e nunca abandonar a população”, afirmou.
A declaração foi interpretada como uma resposta indireta à pressão de setores do MDB, que vinham cobrando continuidade automática do projeto político construído por Ibaneis e discutindo uma reorganização eleitoral para 2026.
Novo eixo político no Buriti
O discurso de Celina também teve forte componente simbólico. Ao afirmar que conduz um “novo governo”, a governadora buscou demonstrar que sua gestão não será apenas uma extensão administrativa da anterior.
Nos bastidores, aliados destacam que mudanças recentes, como a troca da identidade visual do governo, substituindo o tradicional ipê amarelo pelo ipê roxo, representam justamente essa tentativa de consolidar uma marca política própria.
Enquanto o MDB articula possíveis candidaturas ao Senado e até ao Governo do Distrito Federal nas eleições de 2026, Celina tenta fortalecer sua imagem como líder independente e capaz de enfrentar crises herdadas da administração anterior.
O episódio reorganiza completamente o cenário político do Distrito Federal e abre espaço para uma disputa cada vez mais explícita entre antigos aliados que hoje ocupam campos distintos dentro da política local.





















