O cenário político do Distrito Federal atravessa um dos momentos mais turbulentos dos últimos anos após o rompimento público entre a governadora Celina Leão e o ex-governador Ibaneis Rocha. O que até poucos meses atrás era tratado como uma sucessão política natural dentro da mesma base governista se transformou em um confronto aberto, com impactos diretos sobre as eleições de 2026, a governabilidade do GDF e a reorganização das forças políticas no Distrito Federal.
A crise ganhou força após declarações públicas de Ibaneis, que afirmou ter acumulado “muitas decepções” com a atual gestão e passou a defender um “realinhamento” político no grupo que governou o DF desde 2019. A resposta de Celina veio em tom igualmente duro: ao afirmar que “sucessão nunca será submissão”, a governadora deixou claro que pretende construir uma liderança própria, desvinculada da tutela política do antigo aliado.
MDB sinaliza candidatura própria e Rafael Prudente ganha espaço
Nos bastidores, o rompimento acelerou a movimentação do MDB no Distrito Federal. A legenda passou a discutir de forma mais concreta a possibilidade de lançar candidatura própria ao Palácio do Buriti em 2026, encerrando qualquer expectativa de apoio automático à reeleição de Celina Leão.
O principal nome ventilado dentro do partido é o do deputado federal Rafael Prudente, que vem sendo citado em articulações internas e em pesquisas qualitativas realizadas por aliados do grupo emedebista. O MDB avalia que, após oito anos de protagonismo no GDF, não pode aceitar uma posição secundária na disputa majoritária.
Além do governo, o partido também trabalha para ocupar uma das vagas ao Senado, espaço que se tornou um dos principais focos de disputa dentro da direita brasiliense.
Celina fortalece aliança com o PL e o bolsonarismo
Enquanto o MDB reorganiza sua estratégia, Celina Leão busca ampliar sua sustentação política junto ao eleitorado conservador e ao bolsonarismo. A governadora intensificou sua aproximação com o PL e com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que já declarou apoio público à sua gestão.
A movimentação é interpretada como uma tentativa de consolidar uma base eleitoral própria e garantir musculatura política para uma eventual campanha à reeleição. O problema é que essa aproximação cria um choque direto de interesses com o MDB de Ibaneis Rocha.
O PL já trabalha com nomes competitivos para o Senado, entre eles a deputada federal Bia Kicis. A eventual entrada de candidatos ligados ao bolsonarismo na disputa pelas vagas senatoriais ameaça diretamente os planos de Ibaneis, que também é apontado como potencial candidato ao Senado Federal.
Crise do BRB amplia tensão entre os grupos
Outro fator que agravou a ruptura foi a crise envolvendo o Banco de Brasília. O desgaste provocado pelas operações financeiras relacionadas ao Banco Master e os questionamentos sobre a situação fiscal do banco passaram a ocupar o centro do debate político local.
Dentro do governo, integrantes próximos a Celina defendem auditorias, mudanças administrativas e uma revisão de contratos e operações da gestão anterior. Já aliados de Ibaneis interpretam essas iniciativas como uma tentativa deliberada de transferir responsabilidades e desgastar politicamente o ex-governador.
Nos bastidores, cresce a avaliação de que o BRB poderá se transformar na principal arena de enfrentamento político entre os dois grupos nos próximos meses, especialmente caso novas informações sobre operações financeiras e contratos venham à tona.
CLDF pode se tornar novo campo de batalha
O impacto do rompimento também chegou à Câmara Legislativa do Distrito Federal. A presença do presidente da Casa, Wellington Luiz, ao lado de Ibaneis em manifestações recentes foi interpretada como um sinal de alinhamento do MDB contra o atual núcleo do governo.
Deputados distritais ligados ao grupo emedebista já discutem internamente a possibilidade de adotar uma postura mais independente em relação ao Executivo. Isso pode dificultar a tramitação de projetos estratégicos de Celina Leão, especialmente matérias de impacto fiscal e administrativo.
A governadora, que até então contava com ampla base de apoio na CLDF, poderá enfrentar um ambiente político muito mais instável caso a ruptura avance de forma definitiva.
Oposição tenta capitalizar divisão da direita
Enquanto a base governista se fragmenta, partidos de oposição observam o cenário com otimismo. Lideranças da esquerda e de grupos independentes avaliam que a divisão da direita pode abrir espaço para uma disputa mais equilibrada em 2026.
O deputado distrital Chico Vigilante e o ex-governador Rodrigo Rollemberg já se manifestaram publicamente sobre o conflito, classificando o racha como um enfraquecimento do atual grupo político que domina o DF desde 2019.
Nos bastidores, partidos progressistas discutem a possibilidade de construção de uma candidatura unificada que aproveite o desgaste interno da direita brasiliense.
Cenário ainda é incerto
Apesar do tom duro adotado nos últimos dias, Ibaneis Rocha afirmou que a situação ainda não representa um “divórcio definitivo”, mas sim um momento de “preparativos” e reorganização política. Ainda assim, interlocutores dos dois lados admitem que a relação sofreu um desgaste profundo e de difícil reconstrução.
O fato é que o eixo político do Distrito Federal mudou de posição. A antiga aliança que dominava o cenário local começa a dar sinais claros de fragmentação, obrigando partidos, lideranças e grupos econômicos a recalcularem suas estratégias para 2026.
Com disputas pelo Buriti, Senado, controle da base legislativa e narrativa sobre a crise do BRB, Brasília entra oficialmente em uma nova fase de intensa movimentação política marcada por incertezas, disputas internas e alianças cada vez mais imprevisíveis.





















