PONTA DO ICBERG

Ação contra contrato milionário da Seduc-MT avança e Justiça autoriza produção de provas

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Ação popular questiona legalidade da contratação do ensino estruturado; magistrado autoriza oitiva de servidores e gestores para apurar possíveis irregularidades na licitação

A contratação do Sistema Estruturado de Ensino pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT), cujo valor inicial é de R$ 355 milhões e que pode alcançar R$ 531 milhões, continuará sendo investigada pela Justiça. Em decisão recente, o juiz Bruno D’Oliveira Marques, da Vara Especializada em Ações Coletivas, rejeitou as tentativas de encerrar o processo antes da análise do mérito e determinou o avanço da ação para a fase de produção de provas.

A medida abre caminho para que servidores públicos, gestores, fiscais de contrato e responsáveis por pareceres técnicos e jurídicos sejam ouvidos, em uma etapa considerada decisiva para esclarecer como foi conduzida a licitação e se houve falhas capazes de comprometer a legalidade da contratação milionária.

A ação popular foi ajuizada por Elda Mariza Valim Fim e Maria Aparecida Arruda Cortez, que pedem a nulidade dos atos administrativos relacionados à Concorrência Pública nº 002/2021, utilizada para selecionar a empresa responsável pelo fornecimento do Sistema Estruturado de Ensino à rede estadual.

Tentativa de barrar processo é rejeitada

Durante a tramitação, o Governo de Mato Grosso, a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a empresa Dian & Silva Empreendimentos Educacionais e Editoriais Ltda. defenderam o encerramento da ação antes da fase de instrução, sustentando argumentos como inadequação da ação popular, ausência de interesse processual e ilegitimidade das partes.

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O magistrado, contudo, afastou todas as preliminares.

Na decisão, Bruno D’Oliveira Marques destacou que a ação não pretende discutir a política pública de educação adotada pelo Estado, mas sim verificar a legalidade dos atos administrativos praticados durante a licitação, matéria plenamente passível de controle pelo Poder Judiciário.

O juiz também ressaltou que a Constituição Federal assegura a utilização da ação popular como mecanismo de proteção ao patrimônio público e à moralidade administrativa, independentemente da comprovação antecipada de prejuízo financeiro.

Empresa permanecerá no processo

Outro ponto rejeitado pela Justiça foi o pedido da empresa Dian & Silva para ser excluída da ação.

Segundo a decisão, a empresa integrou o consórcio vencedor da concorrência pública e participou diretamente da contratação, razão pela qual deverá permanecer no polo passivo até o julgamento definitivo do processo.

O que será investigado

Com a fase de instrução aberta, a Justiça pretende aprofundar a análise sobre diversos aspectos da contratação considerada uma das maiores da área da educação no Estado.

Entre os principais pontos que passarão por investigação estão:

  • a existência de estudos técnicos que justificassem a contratação;
  • a metodologia utilizada na pesquisa de preços;
  • possíveis restrições à competitividade da licitação;
  • o cumprimento das recomendações expedidas pela Controladoria-Geral do Estado (CGE) e pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE);
  • eventual ocorrência de sobrepreço;
  • possível superfaturamento;
  • pagamentos por serviços eventualmente não executados.
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Na avaliação do magistrado, a documentação atualmente existente no processo não é suficiente para esclarecer todas as dúvidas levantadas pelas partes, tornando necessária a produção de prova testemunhal.

Servidores e gestores poderão prestar depoimento

A decisão prevê a convocação de agentes públicos envolvidos na elaboração de pareceres técnicos e jurídicos, além de gestores e fiscais responsáveis pelo acompanhamento da execução do contrato.

Os depoimentos deverão ajudar a reconstruir todo o processo administrativo, desde o planejamento da contratação até sua execução, permitindo verificar se os procedimentos observaram os princípios da legalidade, economicidade e transparência exigidos pela administração pública.

Próximos passos

As partes foram intimadas para se manifestarem sobre a decisão de saneamento do processo. Encerrada essa etapa, o Judiciário deverá designar audiência de instrução e julgamento, ocasião em que serão colhidos os depoimentos das testemunhas e produzidas as demais provas.

Somente após essa fase será possível o julgamento do mérito da ação, que poderá confirmar a regularidade da contratação ou, caso sejam comprovadas ilegalidades, resultar na anulação dos atos administrativos questionados e em eventuais responsabilizações dos envolvidos.

Enquanto isso, o contrato bilionário da educação mato-grossense permanece sob o escrutínio da Justiça, que agora amplia a investigação para além dos documentos, buscando esclarecer, por meio dos depoimentos dos próprios agentes públicos, como foi construída uma contratação que pode ultrapassar meio bilhão de reais.

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