Enquanto o Distrito Federal enfrenta desafios nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança pública, a população assiste a um cenário cada vez mais frequente na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF): cadeiras vazias, sessões encerradas por falta de quórum e uma produção legislativa comprometida pela ausência de deputados distritais.
O caso mais emblemático ocorreu na tarde da última quarta-feira (5), quando uma sessão ordinária durou apenas 18 minutos, tornando-se um retrato do esvaziamento do plenário. O episódio reacendeu críticas sobre o comprometimento dos parlamentares com a principal atividade do mandato: participar das votações e deliberar sobre projetos de interesse da população.
Sessão relâmpago
A sessão teve início às 15h15, sob a presidência da deputada Jaqueline Silva (MDB). Apenas três minutos depois, os trabalhos precisaram ser suspensos por falta do número mínimo de parlamentares.
Às 15h33, o deputado Fábio Felix (PSol) assumiu a presidência apenas para constatar que o quórum continuava insuficiente e declarar encerrada a sessão.
O resultado foi uma reunião legislativa de apenas 18 minutos, sem deliberações relevantes e sem avanço na pauta acumulada da Casa.
Dos 23 deputados distritais em exercício, apenas sete compareceram ao plenário: Doutora Jane (Republicanos), Fábio Felix (PSol), Jaqueline Silva (MDB), Martins Machado (Republicanos), Max Maciel (PSol), Robério Negreiros (Podemos) e Rogério Morro da Cruz (PSD).
Mais uma vez, projetos de interesse público ficaram sem apreciação porque a maioria dos parlamentares simplesmente não estava presente.
Ausências não são exceção
Levantamento divulgado pelo portal Brasil de Fato DF mostra que, entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, nenhuma sessão plenária contou com a presença de todos os deputados distritais.
Os números revelam um padrão contínuo de esvaziamento do plenário.
O deputado Daniel Donizet (MDB) aparece como o parlamentar com maior número de ausências no período analisado. Somando 2025 e o primeiro semestre de 2026, acumulou aproximadamente 80 registros de faltas ou afastamentos. Apenas em 2026, deixou de comparecer a mais de 80% das sessões deliberativas.
Também figuram entre os parlamentares com maior número de ausências:
- Paula Belmonte (PSDB): 33 registros em 2026 e 21 em 2025;
- Joaquim Roriz Neto (PL): 24 registros em 2026 e 20 em 2025;
- Dayse Amarílio (PSB): 23 registros em cada um dos dois anos;
- Jorge Vianna (PSD): 25 ausências em 2025 e outras 15 em 2026.
Os dados evidenciam que o problema não decorre de um episódio pontual, mas de uma rotina que vem se repetindo ao longo da legislatura.
Salários mantidos e punições raras
Mesmo diante das constantes ausências, os deputados continuam recebendo integralmente seus subsídios mensais de R$ 33.006,39, na maioria dos casos.
O Regimento Interno da CLDF prevê desconto de aproximadamente R$ 1,1 mil por falta injustificada, mas a aplicação dessa penalidade é rara.
Na prática, basta ao parlamentar apresentar uma justificativa por escrito para evitar qualquer desconto.
As justificativas aceitas são amplas e incluem compromissos externos, reuniões institucionais, entrevistas à imprensa, atividades parlamentares, problemas de saúde e até situações emergenciais.
Esse modelo tem sido alvo de críticas por permitir que ausências frequentes sejam formalmente justificadas sem que a sociedade consiga avaliar efetivamente o cumprimento da atividade parlamentar.
Ano eleitoral e prioridades
Nos bastidores da Câmara Legislativa, parlamentares e assessores admitem que a proximidade das eleições de 2026 também influencia o ritmo dos trabalhos.
Com agendas voltadas para articulações políticas, visitas às bases eleitorais e eventos de campanha, o plenário perdeu protagonismo na rotina de parte dos deputados.
O resultado aparece nas sessões esvaziadas, na dificuldade para alcançar quórum e no adiamento sucessivo de votações importantes.
Enquanto isso, propostas aguardam deliberação e debates relevantes deixam de ocorrer por ausência dos próprios parlamentares.
A conta fica para a população
A principal função de um deputado distrital é discutir, votar e fiscalizar as políticas públicas do Distrito Federal. Sem quórum, o processo legislativo praticamente paralisa.
Cada sessão encerrada por falta de parlamentares representa atraso na votação de projetos, requerimentos, emendas e medidas que impactam diretamente a vida da população.
O episódio da sessão de apenas 18 minutos tornou-se mais do que um constrangimento institucional. Expôs uma realidade que vem se repetindo há meses: um plenário frequentemente vazio, uma pauta acumulada e um Poder Legislativo que enfrenta questionamentos sobre sua efetividade.
Enquanto os salários permanecem garantidos e as justificativas para as ausências seguem amplamente aceitas, cresce entre os cidadãos a cobrança por maior compromisso, transparência e presença dos deputados nas sessões para as quais foram eleitos.




















