Prefeitura de Cuiabá espalhou contratos em publicações de última hora e comprometeu milhões com shows, rodeio e aluguel de espaço enquanto enfrenta problemas em serviços públicos
A festa acabou, mas a conta ficou.
Em meio a dificuldades orçamentárias e questionamentos sobre as prioridades da administração municipal, o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), comprometeu pelo menos R$ 3.509.600,47 dos cofres públicos com a realização do Mato Grosso Agrofestival, promovido entre os dias 7 e 9 de agosto, no Parque Novo Mato Grosso.
O valor inclui cachês de artistas, a realização da etapa Master da Professional Bull Riders (PBR) e o aluguel do espaço para os shows. E há um detalhe que aumenta a temperatura da discussão: os contratos foram divulgados de forma fragmentada, parte deles na véspera e parte no próprio dia de abertura do evento.
Ou seja, enquanto a estrutura da festa já estava praticamente pronta para receber o público, o contribuinte ainda tomava conhecimento de quanto a Prefeitura estava comprometendo em dinheiro público.
R$ 1,1 MILHÃO EM TRÊS SHOWS
Somente três atrações nacionais consumiram R$ 1,1 milhão.
João Bosco & Vinícius receberam R$ 500 mil. George Henrique & Rodrigo foram contratados por R$ 300 mil, enquanto Cezar e Paulinho receberam outros R$ 300 mil.
Na programação regional, outros dez contratos somaram R$ 565 mil.
Entre os contratados estão Jonathan e Adam, Rafa Barros, Sarah e Lívia, Raffa Garcia, Douglas Cabral, Yuri & Gustavo, Trio Maravilha, Bison e Comassetto, Fabrício & Fernando e Holy Praise Music.
Somados, os cachês artísticos chegaram a R$ 1,665 milhão.
O RODEIO CONSUMIU MAIS DE R$ 1,3 MILHÃO
Mas a conta não para nos shows.
O maior contrato individual ligado diretamente ao festival foi destinado à realização da Etapa Master da PBR, ao custo de R$ 1.344.600,47.
O contrato inclui serviços técnicos, operacionais, esportivos e administrativos para a competição.
É uma cifra que, sozinha, supera o valor pago pela Prefeitura às três principais atrações nacionais.
MAIS R$ 500 MIL SÓ PELO ESPAÇO
Para completar a conta, o município ainda comprometeu R$ 500 mil com a locação do espaço destinado aos shows no Parque Novo Mato Grosso.
A contratação foi realizada diretamente com a Associação Parque Novo Mato Grosso.
Somando os principais contratos conhecidos, a matemática é direta:
R$ 1,665 milhão em shows + R$ 1,344 milhão na PBR + R$ 500 mil pelo espaço = R$ 3,509 milhões.
Tudo isso em um único festival.
CONTRATAÇÃO DIRETA E PERGUNTAS SEM RESPOSTA
Os contratos foram realizados por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista na legislação quando a competição é considerada inviável.
A questão, porém, não é apenas a modalidade utilizada.
O problema central é a transparência, a oportunidade e a prioridade dada ao gasto público.
Os documentos divulgados não apresentam uma conta consolidada de todo o festival. Também não deixam claro, no material apresentado, quanto a Prefeitura esperava arrecadar ou qual retorno econômico concreto projetava para justificar o investimento.
Quanto o evento movimentou?
Quanto voltou para os cofres públicos?
Quantos empregos foram efetivamente gerados?
Qual foi o impacto econômico para Cuiabá?
Qual foi o custo total, incluindo estrutura, segurança, transporte, divulgação, logística e demais despesas?
São perguntas básicas para qualquer administração que utilize milhões de reais do contribuinte.
AINDA HÁ OUTROS CONTRATOS
A mesma edição da Gazeta Municipal trouxe ainda dois contratos com validade de 12 meses.
Um deles prevê R$ 1.245.620,49 para projetos arquitetônicos e serviços de cenografia.
Outro soma R$ 578.965 para infraestrutura logística de eventos.
Os documentos, contudo, não vinculam esses contratos exclusivamente ao Agrofestival. Por isso, eles não entram na conta dos R$ 3,5 milhões diretamente atribuídos ao evento.
Mas revelam que a máquina pública continua movimentando cifras milionárias na área de eventos.
ATÉ O TRANSPORTE GRATUITO TEM CONTA
A Prefeitura também ofereceu transporte gratuito entre o Pantanal Shopping e o Parque Novo Mato Grosso durante os dias do festival.
O decreto determina que as despesas sejam pagas com recursos municipais.
Mas o custo estimado da operação não aparece no documento mencionado.
Mais uma despesa que precisa entrar na prestação de contas final.
ENQUANTO ISSO, R$ 12,9 MILHÕES SAEM DA LIMPEZA PÚBLICA
O contraste mais incômodo aparece na mesma edição da Gazeta Municipal.
Enquanto milhões foram comprometidos com entretenimento, a gestão Abilio retirou R$ 12,978 milhões da dotação destinada à limpeza pública para cobrir despesas de pessoal e encargos sociais da Limpurb.
São operações orçamentárias distintas, é verdade.
Mas o cidadão tem o direito de perguntar: quais são as prioridades da Prefeitura?
De um lado, milhões para shows, rodeio e estrutura de festival.
De outro, a necessidade de remanejar quase R$ 13 milhões originalmente previstos para a limpeza pública para garantir despesas de pessoal.
Não se trata de dizer que uma despesa necessariamente impede a outra. Trata-se de exigir coerência, planejamento e transparência na administração do dinheiro público.
A FESTA TERMINOU. A CONTA, NÃO.
O problema não é o município promover eventos.
O problema é gastar milhões de reais sem apresentar, de maneira clara e antecipada, quanto custará a festa inteira, qual será a fonte dos recursos, qual retorno se espera e qual será o benefício concreto para a população.
A Prefeitura tem obrigação de mostrar a conta completa.
O cidadão não pode ser informado aos pedaços, por meio de publicações feitas às vésperas ou no próprio dia de abertura, enquanto os contratos já estão assinados e a estrutura já está montada.
A festa pode ter acabado no domingo.
A cobrança, porém, está apenas começando.
Abilio Brunini precisa explicar quanto o Agrofestival realmente custou aos cofres municipais, quais despesas ainda serão contabilizadas e, principalmente, qual benefício concreto Cuiabá recebeu em troca dos milhões comprometidos.
Porque dinheiro público não é verba de festa.
É dinheiro do contribuinte — e cada centavo precisa ter justificativa.




















