ponta do iceberg

OPERAÇÃO HERITAGE: Rede de fundos e empresas aproxima famílias do poder em MT

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Documentos revelam conexões societárias envolvendo Mendes, Carvalho, Garcia e Piccini em meio à investigação sobre o caminho dos R$ 308 milhões pagos pelo Estado à Oi

Uma teia de fundos de investimento, empresas de energia, holdings familiares e procurações colocou nomes ligados a quatro famílias de forte influência política e empresarial de Mato Grosso no radar da Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal.

O levantamento do VG NOTÍCIAS, baseado em documentos societários, registros de CNPJ, dados da CVM, procurações públicas e na decisão do ministro Flávio Dino, do STF, mostra uma sequência de conexões que passa por pessoas ligadas às famílias Mendes, Carvalho, Garcia e Piccini.

No centro da investigação está o destino dos R$ 308,1 milhões pagos pelo Governo de Mato Grosso em acordo relacionado a créditos da Oi. Segundo elementos da investigação reproduzidos na decisão judicial, parte dos recursos teria percorrido uma complexa cadeia de fundos antes de chegar a ativos e participações empresariais.

PROCURAÇÃO DE FILHO DE MAURO MENDES ACENDE ALERTA

Um dos documentos que chama atenção é uma procuração pública assinada em março de 2023.

A São Vicente Geração de Energia concedeu a Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro Mendes, amplos poderes para representar a empresa e realizar operações financeiras, incluindo movimentação de contas, contratação de empréstimos, financiamentos, mútuos e operações de câmbio.

Naquele momento, a empresa tinha entre seus sócios o fundo 5M Capital, que posteriormente passou a se chamar GS Heritage.

Segundo elementos reproduzidos na decisão de Flávio Dino, o GS Heritage tem entre seus cotistas os três filhos de Mauro Mendes.

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A procuração expirou em março de 2024. O levantamento do VG NOTÍCIAS não encontrou documento que comprovasse sua renovação.

Poucos dias depois, em abril de 2024, o Governo de Mato Grosso assinou o acordo que resultou no pagamento de mais de R$ 308 milhões relacionado aos créditos da Oi. A proximidade temporal, porém, não comprova, isoladamente, qualquer relação entre os fatos.

OUTRA PEÇA DA TEIA: GENRO DE MAURO CARVALHO

A cronologia também alcança Hélio Palma de Arruda Neto, genro de Mauro Carvalho Júnior, ex-secretário da Casa Civil de Mauro Mendes e atual chefe da Casa Civil de Otaviano Pivetta.

Sete dias após a procuração concedida a Luís Antônio, Hélio constituiu uma empresa que posteriormente se tornou H4 Holding.

Em 2024, a H4 ingressou na estrutura societária da São Vicente e da VS Energia, ambas constituídas originalmente pelos mesmos fundos.

Em 2025, Luís Antônio e Hélio passaram a ocupar posições de administração na estrutura sucessora da empresa.

O CAMINHO DOS R$ 308 MILHÕES

A investigação da PF aponta para uma cadeia envolvendo pelo menos 15 fundos de investimento.

Entre os nomes estão Royal Capital, Lotte Word, Zurich, London, Coliseu, Golden Bird, Silver Bird e GS Heritage. Segundo o levantamento, 11 desses fundos passaram pelo Banco Master ou pela Sefer Investimentos.

A PF aponta que aproximadamente metade dos recursos teria seguido uma rota que passou pelo Royal Capital, Zurich e London FIP, chegando a participações relacionadas à Parecis Bioenergia, em Diamantino.

É nesse ponto que a investigação volta a tocar o GS Heritage.

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GARCIA E PICCINI TAMBÉM APARECEM

A família Garcia surge em outro núcleo da investigação, relacionado ao fundo Lotte Word.

Fernando Robério de Borges Garcia, conhecido como Berinho e pai do deputado federal Fábio Garcia, aparece relacionado à estrutura investigada.

Já a família Piccini aparece em dois momentos da reconstrução feita pelos investigadores: na discussão sobre o aporte inicial para aquisição dos créditos da Oi e, na outra ponta, por meio de Hilário Renato Piccini, administrador da Parecis Bioenergia.

O próprio levantamento ressalta que essas conexões societárias e familiares não significam, por si só, participação em crime.

PF APERTOU O CERCO

A Operação Heritage foi deflagrada em 6 de agosto de 2026.

A decisão judicial autorizou buscas em 25 empresas e escritórios, bloqueios patrimoniais envolvendo 61 pessoas físicas e jurídicas, quebras de sigilos bancário e fiscal de 85 alvos e suspensão das atividades de 18 fundos.

Também houve apreensão de passaportes de 31 investigados e diligência na sede da Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso.

Não houve prisões.

As medidas são cautelares e não representam condenação.

UMA TEIA DOCUMENTADA, UMA PERGUNTA EM ABERTO

Os documentos mostram uma sequência que envolve fundos, empresas de energia, familiares de políticos, procurações e mudanças societárias.

O que a Polícia Federal ainda precisa esclarecer é se essa rede representa apenas relações empresariais e investimentos regulares ou se determinadas estruturas foram utilizadas para movimentar recursos relacionados ao acordo da Oi, como suspeita a investigação.

As conexões estão documentadas. A eventual responsabilidade criminal dos envolvidos ainda precisa ser apurada.

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