‘A Valsa em Lugares Esquecidos’ com Nelson Rodrigues em penitenciárias femininas leva às mulheres o direito à Arte

(Fotos: Lunar Fotografia)

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O Pauta Diária noticiou divulgou no início deste mês, que ‘Teatro de Nelson Rodrigues levará artista a penitenciárias femininas de Campo Grande e a público em centro cultural’. Assim aconteceu por cinco dias da semana passada, com o Projeto ‘A Valsa em Lugares Esquecidos’ levando o texto de um dos maiores dramaturgos do Brasil às penitenciárias femininas da Capital, onde devolveu às mulheres o direito à Arte, como visava a atriz e idealizadora do projeto, Tauanne Gazoso. Veja abaixo, resultados da ação, em avaliação da artista e do público, entre algumas espectadoras em detenção, que se sentiram ‘livres’.

De 21 a 25 de outubro, foram cinco sessões e duas rodas de conversa em que cerca de 150 mulheres privadas de liberdade puderam ter um encontro raro com o teatro. O projeto levou o espetáculo “Valsa nº 6”, de Nelson Rodrigues, aos dois Estabelecimento Penal Feminino em Campo Grande: de Regime Semiaberto, Aberto e Assistência à Albergada e ao Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi.

Em ‘A Valsa em Lugares Esquecidos’, a atriz e idealizadora Tauanne Gazoso encarna Sônia, uma jovem assassinada que tenta reconstruir, entre delírios e lampejos de memória, o mistério da própria morte. Escrita em 1951, “Valsa nº 6” é uma das obras mais enigmáticas de Nelson Rodrigues — um monólogo de uma alma aprisionada entre lembrança e esquecimento, atravessada por vozes, fantasmas e desejos.

“Eu quis olhar para essas mulheres e dizer que a Arte também é um direito delas. Sônia está presa num limbo, tentando entender o que aconteceu com ela. E talvez, de alguma forma, essas mulheres também estejam tentando reconstruir as próprias histórias. O teatro cria essa ponte: ele não julga, ele ouve”, explica Tauanne sobre Espetáculo Valsa Nº6 de Nelson Rodrigues já apresentado em teatro.

Teatro entrando onde a Arte não chega – depoimentos

O cenário, montado em pátios e auditórios simples, se tornava um palco vivo. Bastava as cadeiras, luzes e o som da valsa para que o ambiente se transformasse. Assim, o projeto percorreu duas unidades do Sistema Penitenciário, com cinco apresentações e duas mediações culturais conduzidas por Tauanne e Halisson Nunes, que abriram espaço para que as internas compartilhassem suas impressões, lembranças e sentimentos.

Em silêncio, as mulheres observavam Sônia falar com sombras, repetir lembranças, rir de um passado que não volta. Algumas choravam. Outras sorriam timidamente. Quando o espetáculo terminava, a plateia permanecia quieta por alguns segundos.

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(Fotos: Lunar Fotografia)

A primeira sessão aconteceu na última terça-feira (21), para as internas do regime semiaberto. Cerca de 75 mulheres (entre nomes fictícios abaixo) acompanharam o espetáculo com atenção quase reverente.

“Eu me senti maravilhada com o teatro, amei. A última vez que vi uma peça eu era criança — e nem lembrava mais. Agora quero ver mais vezes, fiquei arrepiada. Eu e minha amiga do lado ficamos arrepiadas, porque foi surreal. É muito importante ver esses temas voltados para as mulheres aqui dentro, mostra para gente muitas coisas que passamos”, disse Larissa*, emocionada.

Entre as detentas, havia quem já tivesse estado sobre um palco. Luiza* lembrou de quando dançava balé no Teatro Glauce Rocha, ainda menina. “A forma como ela transmitiu as emoções de Sônia foi impecável, lindo mesmo. Eu senti medo, ansiedade e curiosidade. Teve suspense, teve entrega. Foi muito diferente assistir num espaço assim, mais perto, com o som e a luz tão próximos da gente. Foi uma experiência imersiva e linda”, contou Luiza.

A vice-diretora Jaqueline Cunha, do presídio de Regime Semiaberto, Aberto e Assistência à Albergada, também destacou a importância da presença da arte no ambiente. “O teatro e a cultura são essenciais para o desenvolvimento humano. Essas mulheres vivem num universo de sombras, e a arte vem para apaziguar, para trazer luz. É um espaço de emoção, de sensibilidade, e isso é transformador”, afirmou.

As mais fechadas com mais lembranças

Débora*, na plateia do Irmã Irma Zorzi, que cumpre pena há dois meses, se emocionou. “É a primeira vez que vejo teatro aqui dentro. Chorei lembrando dos meus filhos e irmãos. Minha família sempre fazia teatro na igreja, e isso me trouxe uma lembrança boa, um acolhimento”, contou.

O psicólogo Alex Fabiano Silva de Lima, que atua na unidade, destacou o efeito emocional da experiência: “As atividades culturais são fundamentais porque trazem reflexão, sensibilizam e humanizam. A arte muda a forma como essas mulheres se veem e se comportam. Quando elas vivenciam algo assim, há uma elaboração emocional, um novo olhar sobre si mesmas. Isso tem impacto real na convivência e na forma como elas se adaptam aqui dentro”.

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Em cena – Sônia, entre o delírio e a redenção

Na concepção cênica de Tauanne Gazoso, Sônia deixou de ser apenas a vítima indefesa de um crime e se tornou uma mulher em ritual de libertação.

O espetáculo, que originalmente terminava em confusão e mistério, ganhou um novo desfecho: Sônia renasce como uma Pomba Gira Menina, uma entidade de luz que trabalha na proteção de mulheres, jovens e meninas que sofreram violência e injustiça e senhora da autonomia feminina.

“Quando pensei nessa transformação, percebi que era preciso devolver a Sônia o poder de existir — não como um fantasma, mas como uma força ancestral. Ela deixa de ser a menina morta e se torna a mulher inteira. É uma metáfora para todas essas mulheres que estão ali, privadas de liberdade, mas cheias de potência e vida”, conta Tauanne.

O gesto final — Sônia dançando ao som da valsa, agora com o corpo livre, girando em espiral até desaparecer na penumbra — foi recebido com aplausos, lágrimas e silêncio. Ao término de cada sessão, as mulheres eram convidadas a conversar com a atriz, compartilhando emoções, lembranças e perguntas.

Arte, direito e liberdade

O projeto “A Valsa em Lugares Esquecidos” foi contemplado por edital de fomento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC), e operacionalizado pela Prefeitura de Campo Grande, através da Fundac (Fundação Municipal de Cultura).

(Fotos: Lunar Fotografia)

Antes das apresentações nas unidades prisionais, o público pôde assistir ao espetáculo no Sesc Teatro Prosa, no dia 16 de outubro, com tradução em Libras e ingressos gratuitos.

Mas foi nas penitenciárias que o teatro cumpriu seu destino mais profundo: o de atravessar muros — físicos e simbólicos — e devolver às mulheres o direito ao espanto, à emoção e à arte.

Para Halisson Nunes, responsável pela preparação corporal e produção executiva, o gesto é, acima de tudo, um manifesto: “Levar o teatro a esses espaços é um ato político e poético. O título do projeto não é só uma metáfora — são realmente lugares esquecidos pela arte e pela cidade. E quando uma mulher ali se emociona, se reconhece, algo se move. É disso que se trata: de mover”.

 

*Os sobrenomes foram ocultados para preservar a identidade das mulheres.

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