Mesmo sem vínculo jurídico direto, a vice-governadora do DF enfrenta o dilema clássico da política: a responsabilidade compartilhada de um governo sob investigação.
Por anos, a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), manteve-se relativamente protegida das crises que atingiram o núcleo do Palácio do Buriti. O escândalo envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e as operações com o Banco Master, contudo, inaugura um novo capítulo: a blindagem política começa a ser testada pelo peso de um rombo bilionário que ameaça a credibilidade financeira do DF e a previdência dos servidores.
Do ponto de vista estritamente jurídico, a defesa de Celina sustenta que ela não participou das negociações, não foi consultada e tomou conhecimento do caso apenas pela imprensa. Até agora, não há documentos, assinaturas ou despachos que a conectem diretamente às decisões sob investigação. Sob a lógica do processo penal clássico, isso a mantém fora do foco imediato das apurações.
O problema, apontam analistas, é que a política não se resolve apenas nos autos.
Responsabilidade política além da caneta
A crise do BRB expõe um conflito recorrente entre responsabilidade jurídica e responsabilidade política. Embora a vice-governadora não tenha assinado atos relacionados às operações questionadas, ela integrou ativamente o governo durante o período em que o maior prejuízo da história do banco foi gestado.
Celina Leão não ocupou um papel decorativo. Foi protagonista na articulação política, na sustentação da base governista e na consolidação de um projeto de poder que, agora, é questionado. Nesse contexto, cresce a avaliação de que a alegação de desconhecimento — ainda que válida juridicamente — encontra limites na arena política, onde ônus e bônus são compartilhados.
Cultura de poder e alertas ignorados
O caso Banco Master é descrito, por fontes técnicas e políticas, como resultado de uma cultura de decisões concentradas, com desprezo por alertas internos e resistência a controles de risco. O BRB, segundo essa leitura, teria sido utilizado como instrumento político, em um ambiente marcado por pressões explícitas do governador Ibaneis Rocha (MDB) e pela aprovação da Câmara Legislativa do DF, mesmo diante de sinais de fragilidade financeira.
Ainda que Celina não tenha participado da negociação específica, o argumento que ganha força é o de que ela compôs o governo que criou as condições institucionais para que a operação prosperasse. Na política, esse vínculo pesa.
Pré-campanha sob tensão
À medida que 2026 se aproxima, a estratégia de comunicação da vice-governadora busca descolar sua imagem do imbróglio do BRB, afastando-a de figuras centrais da crise e reforçando a narrativa de discordâncias internas. O esforço, porém, esbarra em um obstáculo lógico: ninguém governa por sete anos ao lado de um gestor sem herdar os efeitos estruturais dessa gestão.
As investigações federais — que já registram depoimentos citando o governador — ampliam a pressão sobre todo o grupo político. Mesmo sem imputação direta, o desastre financeiro “cola” na imagem de quem integrou o comando do Executivo por uma razão simples: cabia ao governo impedir o dano.
O debate que se desenha
O embate político que se avizinha não se limita à pergunta sobre quem assinou o quê. Ele se desloca para um terreno mais amplo: quem estava no poder enquanto o rombo era construído e quais omissões permitiram que isso ocorresse.
Para Celina Leão, o desafio é claro. Sua defesa jurídica pode resistir. A blindagem política, porém, será testada diariamente por um eleitorado que tende a cobrar não apenas atos, mas presença, vigilância e responsabilidade. No jogo político, o silêncio também tem custo — e, neste caso, pode ser alto.
























