Em dez anos, 85 mulheres foram assassinadas em Campo Grande simplesmente por serem mulheres. O número, obtido junto à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS), revela uma tragédia silenciosa e persistente que não dá sinais de recuo. Mesmo com leis mais severas e campanhas de conscientização, a capital sul-mato-grossense segue sendo palco de uma violência que expõe a ineficácia das políticas de segurança e de proteção à mulher.
Em 2024, Campo Grande respondeu por quase um quarto (23,48%) dos feminicídios de todo o Estado, segundo dados oficiais. Desde 2015, o município somou 85 vítimas — número superior ao total registrado em dezenas de cidades somadas.
Violência sem pausa
O ano de 2025 começou com a morte da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, esfaqueada em fevereiro por um homem com histórico de violência contra mulheres. Em seguida, vieram os casos de Giseli Oliskowiski, Vanessa Eugenia Medeiros e Luana Cristina Ferreira Alves, todas mortas em circunstâncias brutais e dentro de suas próprias casas — o espaço que deveria ser de proteção.
O caso mais recente, no fim de outubro, é emblemático da negligência do Estado: Luana Alves, de 32 anos, foi assassinada a facadas por Gilson Castelan de Souza, um foragido da Justiça de Mato Grosso que já havia cometido um crime semelhante em 2022. Mesmo com mandado de prisão em aberto, ele circulava livremente até matar novamente.
“Como um foragido por feminicídio consegue atravessar o Estado e continuar à solta? Isso revela uma falha grave de comunicação entre os sistemas de segurança e Justiça”, avalia uma fonte da área de segurança ouvida pela reportagem sob anonimato.
Piora na Capital
Embora o número de 2025 ainda não tenha superado os piores anos, como 2022 (13 vítimas) e 2020 (12), o cenário preocupa. “A ausência de políticas públicas efetivas de prevenção, a fragilidade das medidas protetivas e a falta de estrutura nas delegacias especializadas acabam resultando em mortes anunciadas”, explica a socióloga e pesquisadora de gênero [nome fictício], da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostra que Mato Grosso do Sul tem a segunda maior taxa de assassinatos de mulheres por parceiros do país, com 2,4 casos por 100 mil habitantes — atrás apenas do Mato Grosso.
Leis mais duras, mas pouca prevenção
A nova Lei do Feminicídio, sancionada em outubro de 2024, aumentou a pena para até 40 anos de prisão e tornou o crime autônomo, desvinculando-o do homicídio qualificado. Mas especialistas alertam que endurecer penas não basta se o Estado falha em garantir o básico: prevenção, acolhimento e agilidade nas denúncias.
“A punição é necessária, mas chega sempre tarde. As mulheres pedem ajuda antes de morrer, e muitas vezes não são ouvidas”, afirma [nome fictício], coordenadora de uma ONG de apoio a vítimas de violência doméstica.
Segurança pública sob questionamento
Os casos recentes mostram que o problema não é apenas individual, mas estrutural. Falta integração entre polícias, acompanhamento de foragidos e monitoramento de reincidentes. A ausência de abrigos, de apoio psicológico e de mecanismos de proteção digital também agrava a vulnerabilidade das vítimas.
Enquanto as mortes seguem sendo registradas, cresce o sentimento de impotência entre familiares e movimentos sociais. Em nota recente, o coletivo “Mulheres pela Vida” cobrou mais recursos para as Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAMs) e a criação de um protocolo estadual de resposta rápida a ameaças de feminicídio.
“Não podemos continuar tratando cada caso como um fato isolado. São padrões, são alertas ignorados. O Estado precisa agir antes do golpe fatal”, diz o manifesto.
Feminicídios em números – Campo Grande (2015–2025)
-
85 vítimas em 10 anos
-
13 casos em 2022 – pior ano da década
-
12 casos em 2020
-
23,48% dos feminicídios do Estado concentram-se na Capital
-
277 vítimas nas demais cidades do MS no mesmo período





















