O Governo do Distrito Federal (GDF) suspendeu cautelarmente os pagamentos de um contrato de aproximadamente R$ 98 milhões firmado para a aquisição de utensílios destinados à alimentação escolar da rede pública. A medida foi tomada após denúncias envolvendo possível conflito de interesses entre a fiscal responsável pelo contrato e o representante da empresa fornecedora, além de sucessivos relatos de problemas na qualidade dos materiais distribuídos às escolas.
A crise atinge diretamente a rede pública de ensino do Distrito Federal e levanta questionamentos sobre os critérios de fiscalização, controle e segurança dos produtos utilizados por milhares de estudantes.
Relacionamento entre fiscal e empresário gera suspeitas
O centro da controvérsia envolve a então gerente de monitoramento da alimentação escolar da Secretaria de Educação do DF (SEEDF), Luana Vanessa Duarte, e o empresário Idinaldo Cardoso da Silva, representante da empresa HD Empreendimentos, sediada em Roraima.
Luana havia sido nomeada fiscal titular do contrato poucos dias após a assinatura do acordo milionário. Entretanto, fotografias divulgadas em redes sociais revelaram que ela mantinha um relacionamento amoroso com o empresário responsável pela empresa contratada pelo governo.
Após a repercussão do caso, a servidora solicitou exoneração do cargo e também pediu dispensa da função de fiscalização do contrato. Em nota, a Secretaria de Educação afirmou que desconhecia o vínculo pessoal entre ambos até o surgimento das denúncias.
A situação provocou forte reação dentro da própria rede pública e levou o GDF a determinar auditoria técnica e financeira sobre toda a execução contratual.
Kits escolares apresentam risco de queimaduras
Além das suspeitas administrativas, os materiais entregues às escolas passaram a ser alvo de reclamações de servidores, merendeiras e integrantes do Conselho de Alimentação Escolar (CAE).
Segundo relatos, aproximadamente 150 mil kits já foram distribuídos para 461 unidades de ensino do DF. Os conjuntos incluem copos, pratos, cumbucas, colheres e bandejas.
Os principais problemas apontados envolvem:
- utensílios de alumínio revestidos com plástico que aquecem excessivamente ao contato com alimentos quentes;
- relatos de crianças que sofreram queimaduras nas mãos e na boca;
- infiltração de água entre o alumínio e o revestimento plástico durante a lavagem;
- peças oxidadas e com sinais de desgaste precoce;
- colheres frágeis que entortam facilmente durante o uso.
Diante da repercussão, algumas escolas optaram por interromper o uso dos novos materiais e retornaram aos utensílios antigos para evitar riscos aos estudantes.
Empresa é alvo de investigação da Polícia Federal
O representante da HD Empreendimentos, Idinaldo Cardoso da Silva, também passou a ser investigado em outra frente. Em abril de 2026, ele foi preso em flagrante pela Polícia Federal em Roraima transportando cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo.
O empresário responde em liberdade por suspeita de lavagem de dinheiro. O inquérito investiga possíveis fraudes em licitações e desvios de recursos públicos.
Embora a investigação não esteja diretamente vinculada ao contrato da alimentação escolar do DF, o episódio aumentou a pressão sobre a Secretaria de Educação e reforçou pedidos de aprofundamento das apurações.
Pagamentos bloqueados e auditoria em andamento
Até o momento, a Secretaria de Educação informou que cerca de R$ 27 milhões já foram pagos à empresa, referentes à entrega de aproximadamente 125 mil kits.
Os pagamentos restantes foram bloqueados preventivamente até a conclusão da auditoria aberta pelo GDF. O objetivo é verificar tanto a regularidade da contratação quanto a qualidade técnica dos materiais entregues às escolas.
A crise reacende o debate sobre transparência nas licitações públicas e sobre a necessidade de maior rigor na fiscalização de contratos ligados à alimentação e à segurança de estudantes da rede pública do Distrito Federal.






















