Poder político acima da proteção à vítima

Escândalo na Câmara: exoneração de vítima de Sandro Benites expõe possível jogo político e nepotismo cruzado

Vereador Papy (PSDB) / Thiago de Souza

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A decisão do presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, vereador Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), de exonerar uma servidora que obteve medida protetiva contra o ex-secretário da Fundação Municipal de Esportes, Sandro Benites, ampliou o desgaste político na Casa de Leis e levantou acusações graves de perseguição, favorecimento político e nepotismo cruzado.

A servidora, que atuava há quase uma década no Legislativo municipal, afirma que a demissão não teve qualquer relação administrativa, como alegado por Papy, mas sim com o rompimento de um acordo político de troca de cargos entre o presidente da Câmara e o então chefe da Fundação Municipal de Esportes de Campo Grande (Funesp).

Segundo o relato da vítima, o próprio diretor-geral da Câmara teria deixado claro que a exoneração foi consequência de um desentendimento político entre Papy e Benites.

“Ele falou para mim que tinha ocorrido discordância entre o Benites e o Papy em relação ao meu cargo. Disse que, como eu sabia como funcionava o jogo político, eu estava demitida”, relatou.

A explicação reforça a suspeita de um arranjo político envolvendo troca de cargos entre instituições públicas, prática que especialistas frequentemente classificam como forma de nepotismo cruzado ou loteamento político da máquina pública.

Estrutura do setor desmente justificativa

A versão oficial apresentada por Papy sustenta que a exoneração ocorreu por necessidade de reorganização administrativa após mudança na chefia do setor.

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Entretanto, informações obtidas pela reportagem indicam que o novo gestor da área nunca solicitou a vaga. Além disso, o departamento onde a servidora atuava tem capacidade para até sete profissionais, mas funcionava com apenas quatro servidores no momento da demissão — o que desmonta o argumento de falta de espaço.

Nos bastidores da Câmara, a interpretação predominante é de que a decisão foi estritamente política, contrariando o discurso público da presidência da Casa.

Pressão e violência psicológica

A servidora também relata ter sido alvo de pressão direta de Sandro Benites enquanto ele ocupava o comando da fundação municipal.

Segundo ela, o cargo era frequentemente utilizado como instrumento de controle e intimidação.

“Ele me ameaçava várias vezes. Dizia que se ele caísse, eu cairia também”, afirmou.

Os episódios teriam ocorrido no contexto de um relacionamento extraconjugal que durou cerca de seis anos e que, segundo a vítima, era amplamente conhecido dentro da Câmara.

Após o término da relação, a situação teria escalado. Dias depois, a servidora conseguiu na Justiça uma medida protetiva após Benites tentar tomar seu telefone celular.

Versões contraditórias

O presidente da Câmara, Epaminondas Neto, sustenta que desconhecia o relacionamento entre a servidora e o ex-secretário — versão contestada pela vítima, que afirma que a relação era pública dentro da instituição.

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Além disso, o parlamentar alegou que o chefe do setor teria solicitado a vaga para montar sua equipe. No entanto, registros obtidos pela reportagem indicam que o gestor afirma nunca ter feito tal pedido.

Mesmo diante de apelos de outros vereadores para manter a servidora no cargo  especialmente após ela relatar dificuldades financeiras e despesas médicas com o filho Papy manteve a exoneração.

Poder político acima da proteção à vítima

Procurado pela reportagem, Papy reiterou que não possui indicados políticos na Funesp, negou qualquer relação entre a exoneração e a medida protetiva e afirmou que a decisão foi resultado de um arranjo administrativo interno.

O presidente também argumentou que, por se tratar de cargo comissionado, a decisão de exoneração é prerrogativa da presidência da Câmara.

Apesar da justificativa formal, o caso levanta questionamentos sobre uso político de cargos públicos, retaliação institucional e ausência de proteção a vítimas de violência dentro da estrutura do poder público municipal.

A situação expõe um cenário delicado: enquanto um ex-secretário enfrenta denúncias de violência psicológica, a mulher que buscou proteção judicial acabou sendo afastada do cargo que ocupava há quase dez anos — decisão que agora coloca a presidência da Câmara no centro de mais uma crise política.

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