GDF autorizou abordagem de servidores para promover serviços do PicPay, aponta investigação

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O Governo do Distrito Federal (GDF) passou a ocupar posição central nas investigações da Operação Juros Zero, deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e pela Polícia Civil do DF (PCDF). As apurações indicam que a estrutura administrativa do Estado teria sido utilizada para promover serviços financeiros oferecidos pelo PicPay a servidores públicos, enquanto um esquema de descontos considerados irregulares era implantado na folha de pagamento do funcionalismo. 

Segundo os investigadores, a Secretaria de Economia desempenhou papel ativo na divulgação dos produtos financeiros. Documentos obtidos durante a investigação apontam que o então secretário de Economia, Ney Ferraz, autorizou e incentivou a circulação de representantes da empresa em órgãos públicos para captar novos clientes entre servidores ativos, aposentados e pensionistas. 

Estrutura pública usada para ampliar adesões 

As apurações revelam que ofícios da própria Secretaria de Economia orientavam gestores de diferentes órgãos a facilitar a divulgação dos serviços. Em um dos episódios citados na investigação, funcionários ligados ao PicPay receberam autorização para atuar em dependências do complexo do Palácio do Buriti, abordando diretamente servidores. 

O produto oferecido era apresentado como uma modalidade de antecipação salarial sem juros. No entanto, de acordo com o Ministério Público, a operação escondia características típicas de empréstimos consignados, utilizando uma estrutura de descontos em folha que teria sido implementada por meio de alterações normativas promovidas pelo próprio governo distrital. 

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Para os investigadores, a participação institucional do Estado foi decisiva para conferir credibilidade às operações e ampliar rapidamente a adesão dos servidores. 

Lucros milionários e prejuízos aos servidores 

As investigações também apontam que o sistema de gestão dos descontos gerou receitas expressivas para a BRB Serviços, subsidiária do Banco de Brasília (BRB). Dados reunidos pelos órgãos de controle indicam que a empresa faturou cerca de R$ 8,9 milhões em 2024 com operações relacionadas ao ConsigServ, plataforma utilizada para os descontos em folha. 

O Ministério Público sustenta que o modelo criou incentivos financeiros para a expansão das operações, enquanto servidores acumulavam dívidas e enfrentavam descontos que, em diversos casos, são apontados como indevidos ou não autorizados. 

Entre os grupos afetados estariam aposentados e pensionistas vinculados ao Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF). 

Associação também é investigada 

Outro foco da Operação Juros Zero é a Associação dos Servidores Públicos do Distrito Federal (ASDF). Segundo os investigadores, a entidade teria utilizado contratos de assistência e benefícios para viabilizar descontos que, na prática, estariam ligados a operações de crédito. 

A apuração também investiga denúncias de uso indevido de senhas, códigos de autenticação e autorizações eletrônicas de servidores para efetivar descontos sem consentimento válido. 

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Os números chamaram a atenção dos órgãos de controle. Conforme a investigação, a arrecadação da associação saltou de aproximadamente R$ 3 mil em 2023 para cerca de R$ 1,49 milhão em 2025. 

Operação bloqueia R$ 90 milhões 

A Operação Juros Zero cumpriu 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, São Paulo e Paraná, além de determinar o bloqueio de aproximadamente R$ 90 milhões em bens e valores dos investigados. 

Entre os alvos estão o ex-secretário de Economia Ney Ferraz, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, além de empresas e entidades envolvidas no sistema de descontos. 

Em nota, a Secretaria de Economia afirmou que a investigação está direcionada à conduta de pessoas físicas e não à atuação institucional da pasta. A posição, entretanto, é confrontada pelos próprios elementos reunidos pela investigação, que apontam participação direta de estruturas governamentais na promoção dos serviços financeiros. 

O caso levanta questionamentos sobre os limites da atuação do Estado na intermediação de produtos privados e sobre a responsabilidade da administração pública na proteção dos dados, da renda e dos direitos dos servidores públicos do Distrito Federal. 

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