O Mato Grosso que Mauro Mendes não vê

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“Conversa fiada”, disse o governador 

“Que tem facção criminosa, isso é em praticamente todos os estados. Agora, dominando, isso não existe. É conversa fiada.” Mauro Mendes, então governador de Mato Grosso, novembro de 2025 .

Uma motorista de aplicativo e o marido foram sequestrados, torturados e mantidos em cárcere privado por integrantes de uma facção criminosa na noite de quarta-feira, 27 de maio de 2026, em Sinop (MT). O casal foi salvo após a chegada da polícia, que prendeu cinco suspeitos em flagrante. 

Segundo as investigações, a mulher havia parado o carro em frente à casa de uma amiga. O que seria apenas uma visita casual terminou em horas de terror. Os dois foram arrastados para dentro da residência, amarrados e espancados com socos e chutes durante cerca de três horas. No local, os criminosos utilizavam furadeiras e chaves de fenda como instrumentos de tortura. 

A fala e o silêncio confortável do poder 

Em novembro de 2025, ao comentar um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que apontava a presença de facções criminosas em 65% dos municípios de Mato Grosso, Mauro Mendes recorreu à negação. Para o governador, a mera filiação a uma facção não configura crime se não houver ato criminoso em curso, uma afirmação que ignora  a Lei nº 12.850/2013, a mesma que tipifica como crime a simples associação estruturada de quatro ou mais pessoas para obter vantagem ilícita. 

O discurso oficial do governo Mendes oscilava entre dois polos igualmente convenientes: a autopromoção da “Tolerância Zero” e a minimização do problema que essa tolerância deveria combater. Em um mesmo palanque, era possível ouvir o governador elogiar operações policiais diárias e negar que o crime organizado dominasse qualquer parte do estado. 

Porém, o Mato Grosso real não esperou por coerência. Ele continuou sangrando. 

 Das palavras aos fatos: um estado em guerra 

 Em Sorriso(MT), a “capital do agro” e a “capital das facções” sãp ostentados dois títulos que expõem a fratura do Brasil contemporâneo. De dia, a capital nacional do agronegócio, o maior produtor de soja do planeta. À noite, carrega o peso de ter sido apontada como o município, de grande porte, mais violento de toda a Amazônia Legal. 

A cidade liderou o ranking de mortes violentas intencionais no triênio recente, registrando uma taxa média de 65,3 mortes a cada 100 mil habitantes, mais que o triplo da média nacional. Em 2022, foram 78 mortes violentas. Em 2023, no auge do conflito entre o Comando Vermelho e a Tropa do Castelar, dissidência local que trocou de lado e se aliou ao PCC, o número saltou para 86 vítimas a cada 100 mil habitantes. 

Em março de 2026, uma mulher de 27 anos foi presa em Sorriso (MT) acusada de participar de um sequestro, tortura e homicídio ligado à disputa entre facções. “Ela participou do sequestro das vítimas, do tribunal do crime, foi a responsável por subtrair e esconder as drogas que estavam em poder das vítimas, que eram traficantes de uma facção rival, e posteriormente participou da decisão de como a vítima seria executada e por quem seria.” Isso não é “conversa fiada”. Segundo o delegado responsável. 

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Em outubro de 2025, no município de Araputanga (MT), uma adolescente de 16 anos foi vítima de um dos crimes mais brutais atribuídos às facções criminosas no interior do estado. A jovem foi atraída para uma residência no bairro Jardim Village, onde acabou submetida a um “salve”, espécie de julgamento interno promovido por integrantes de organizações criminosas. 

Segundo as investigações da Polícia Civil, a execução foi marcada por horas de tortura. A adolescente sofreu agressões físicas violentas, foi submetida a afogamento em uma caixa-d’água e recebeu choques elétricos improvisados com um ventilador adaptado. Ao final da sessão de violência, foi estrangulada com um lençol. 

 

Para desmantelar a célula responsável, a Polícia Civil deflagrou a Operação Proditio em janeiro de 2026, cumprindo 21 ordens judiciais. A menina não voltou. 

Em março de 2026, o Tribunal do Júri da Comarca de Guiratinga (MT) condenou quatro réus a penas que somam 103 anos, três meses e 12 dias de reclusão pelos crimes de homicídio qualificado, tortura mediante sequestro e organização criminosa armada. A vítima havia sido sequestrada sob a acusação de ter desrespeitado regras da organização criminosa. Foi levada a uma residência, teve mãos e pés amarrados e foi submetida a socos, tapas e chutes, o chamado “castigo” ou “salve” no jargão das facções. Não sobreviveu. 

Em maio deste ano, em Tangará da Serra (MT) foi resgatado a tempo por policiais militares do 7º Comando Regional encontraram um jovem amarrado em uma área de mata. Ele seria executado por membros de uma facção criminosa. Dois suspeitos foram presos. 

No município de Lucas do Rio Verde (MT), cidade símbolo do agronegócio mato-grossense, dois homens faccionados de 19 e 20 anos foram detidos pela Polícia Militar com uma pistola carregada e oito munições, antes de concretizarem uma execução contra um rival de facção oposta. 

O mapa que o governador não queria ver 

Dados do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula, revelam que 42 municípios de Mato Grosso estão sob domínio de facções criminosas. O Comando Vermelho é a facção hegemônica no estado, presente de forma exclusiva em 23 municípios, entre eles Cuiabá, Várzea Grande, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Alta Floresta, Cáceres e Rondonópolis. PCC, Tropa do Castelar e B40 disputam espaço nas bordas. 

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O que atrai o crime organizado não é apenas a pobreza, é exatamente a riqueza. As rodovias que escoam soja e boi também escoam cocaína da Bolívia e do Peru em direção aos portos do sudeste. A pujança econômica das cidades do agro facilita a lavagem de dinheiro em comércios legítimos: garagens, construtoras e redes de varejo. 

Mauro Mendes chegou a comparar a situação de Mato Grosso ao Rio de Janeiro para minimizá-la: “Em Mato Grosso não há comunidades fechadas à polícia como no Rio de Janeiro.” Mas enquanto o governador buscava paralelos favoráveis, a Operação Garateia prendia 34 suspeitos e cumpria mais de 80 ordens judiciais em Sinop, Tapurah, Cláudia e Lucas do Rio Verde, desmantelando uma organização criminosa com ramificações até o Piauí. 

Como se combate aquilo que não existe? 

Entre janeiro e abril deste ano, 2026, a Polícia Civil de Mato Grosso bloqueou R$ 7,2 bilhões em bens de suspeitos ligados ao crime organizado, ante R$ 8,4 milhões no mesmo período de 2025. Um crescimento de quase 857 vezes. Esse número não é discurso, é a dimensão real de um problema que o governo se recusava a nomear com a gravidade que merecia. 

Também não é discurso o fato de que 812 pessoas foram presas pela Polícia Civil matogrossense apenas nos quatro primeiros meses de 2026. 

O custo do negacionismo 

Quando um governador diz que domínio de facção criminosa “não existe” em seu estado, ele não está apenas errado. Ele está sinalizando para a população que vive sob esse domínio, trabalhadores, motoristas de aplicativo, adolescentes, moradores de bairros periféricos, que o poder público não reconhece sua realidade. E ao não reconhecê-la, também não prioriza os recursos, as políticas e o debate honesto que seriam necessários para enfrentá-la. 

O casal de Sinop (MT) que ficou três horas amarrado e torturado veio de Sorriso, a cidade das facções, para “passear”. Acabou dentro de uma casa onde furadeiras e chaves de fenda esperavam por eles. Foram salvos pela Polícia Militar, que opera nos limites de um sistema que o próprio governo Mendes reconhecia como insuficiente. 

Naquele mesmo estado, naquele mesmo período, o governador dizia que domínio de facção era “conversa fiada”. O Mato Grosso de Mauro Mendes existia nos discursos, nos rankings fiscais, nos sete mil quilômetros de rodovias asfaltadas e nos palanques da Série A dos estados. 

O Mato Grosso real existia, e ainda existe, nas furadeiras, nos lençóis, nos salves, nos tribunais do crime e nos rostos amarrados de cidadãos que só queriam visitar uma amiga.

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