Distrito Federal

Picpay no GDF: salários como moeda de troca e a sombra da corrupção que não abandona o Buriti

Foto: Breno Esaki/Metropoles

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Transferências milionárias, cobranças irregulares e suspeitas de uso de dados ampliam pressão sobre o Governo do Distrito Federal

Mais um capítulo nebuloso coloca em xeque a ética e a legalidade na gestão do Governo do Distrito Federal (GDF). O que deveria ser um facilitador financeiro para o funcionalismo público, a antecipação salarial via aplicativo, transformou-se em um alvo de investigação por órgãos de controle, evidenciando falhas graves e levantando suspeitas de que, mais uma vez, interesses privados e políticos se sobrepõem ao bem-estar do servidor.

A Conexão Milionária: R$ 34 Milhões e Coincidências Suspeitas

O ponto mais crítico e alarmante envolve a relação financeira entre o grupo J&F (controlador do PicPay e da JBS) e o escritório de advocacia ligado ao governador Ibaneis Rocha. Relatórios enviados à CPMI do INSS revelam que, em apenas um ano, o escritório recebeu R$ 34 milhões do grupo.

A cronologia dos fatos é, no mínimo, embaraçosa para o governo: o primeiro repasse, de R$ 1 milhão, ocorreu apenas quatro dias após o credenciamento oficial do PicPay no Diário Oficial do DF, em outubro de 2024. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, foram 15 operações financeiras, em um padrão de pagamentos mensais que foge à normalidade institucional e alimenta suspeitas de conflito de interesses e favorecimento.

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Taxas Ilegais: O “Juro Disfarçado” no Contracheque

Enquanto o GDF e o PicPay vendiam o serviço como “seguro e sem juros”, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) descobriu uma realidade bem diferente. A área técnica da Corte identificou a cobrança de uma “taxa administrativa” irregular, que na prática funciona como um custo financeiro proibido para essa modalidade de desconto compulsório em folha.

O volume financeiro retirado dos bolsos dos servidores é assustador: os descontos saltaram de R$ 11,7 milhões em 2024 para R$ 70 milhões nos primeiros oito meses de 2025, totalizando R$ 81,7 milhões. Diante da ilegalidade, o TCDF determinou a suspensão imediata de novos descontos, expondo a fragilidade fiscalizadora da Secretaria de Economia, que se limitou a dizer que cabia ao servidor analisar o contrato.

Invasão de Privacidade: Seus Dados Foram Vendidos?

A insegurança não é apenas financeira, mas também digital. Servidores relataram surpresa ao receberem mensagens de texto (SMS) do PicPay oferecendo empréstimos, mesmo sem nunca terem se cadastrado no aplicativo. Embora a Secretaria de Economia negue o compartilhamento de dados, o acesso indevido às informações pessoais dos funcionários públicos é evidente. Para agravar o cenário de promiscuidade entre o público e o privado, a empresa chegou a montar um estande de divulgação dentro do Palácio do Buriti, a sede do governo.

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Um Padrão de Descaso e Atos Ilícitos

Este episódio não é um fato isolado, mas sim parte de um cenário recorrente de insegurança estrutural no DF. O funcionalismo já lida com crises no INAS (plano de saúde sob suspeita de favorecimento), problemas no BRB e na Dataprev.

A sensação entre a categoria é de que o salário, uma garantia básica, tornou-se alvo de “interesses cruzados” e ganho pessoal de governantes. A pergunta que fica é: até quando o funcionalismo público do Distrito Federal será vítima de modelos de negócio que beiram a ilicitude, enquanto o topo da pirâmide governamental mantém conexões financeiras milionárias com as empresas beneficiadas.

Nota: As partes envolvidas negam irregularidades. A defesa do governador afirma que ele não tem vínculo com o escritório desde 2018, e a J&F sustenta que os pagamentos referem-se a serviços jurídicos prestados em outros processos.

 

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