A adesão da Prefeitura de Miranda a uma ata de registro de preços que beneficia a empresa Pantanal Gestão e Tecnologia LTDA acende um alerta grave sobre critérios de contratação, transparência e responsabilidade com recursos públicos. O município, localizado a cerca de 210 quilômetros de Campo Grande, prevê desembolsar R$ 1,4 milhão ao longo de 12 meses para serviços de administração e gerenciamento informatizado de locação de veículos e máquinas.
A informação consta em publicação no Diário Oficial da Assomasul, mas chama atenção o fato de a mesma edição não apresentar o extrato contratual completo — indício de que a formalização ainda não ocorreu integralmente. Mesmo assim, a movimentação administrativa já levanta questionamentos sobre a prudência da gestão municipal ao avançar com uma contratação de alto valor envolvendo empresa sob investigação.
Empresa sob suspeita
A contratada pertence a um grupo familiar investigado por fraudes em licitações no estado vizinho, o Mato Grosso. O histórico inclui atuação em diferentes municípios, como Confresa, onde a companhia venceu a Ata de Registro de Preços nº 090/2025, originada do Pregão Presencial nº 008/2025 justamente o instrumento ao qual Miranda decidiu aderir.
O caso ganhou dimensão com a deflagração da Operação Gomorra, em novembro de 2024, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso. A investigação teve como alvo o empresário Roger Correa da Silva, proprietário da empresa, que chegou a ser alvo de mandado de prisão. Ele é sobrinho de Edézio Corrêa, apontado como liderança do esquema que teria alcançado contratos em mais de 100 prefeituras e câmaras municipais.
Sinais de alerta ignorados
Mesmo diante desse histórico, a Prefeitura de Miranda optou por avançar na adesão à ata. A decisão suscita críticas duras: por que assumir compromisso milionário com uma empresa cercada por suspeitas? Houve análise de risco jurídico e reputacional? Foram consideradas alternativas mais seguras para a administração pública?
A contratação pública não pode ser tratada como mero procedimento burocrático. Quando há investigações em curso envolvendo possíveis fraudes, o mínimo esperado é cautela redobrada, transparência absoluta e justificativas técnicas robustas elementos que, até o momento, não vieram a público.
Responsabilidade com o dinheiro público
O episódio expõe uma fragilidade recorrente em administrações municipais: a dependência de atas externas sem avaliação rigorosa do histórico das empresas beneficiadas. Esse tipo de prática pode transformar a economia prometida em prejuízo futuro, seja por questionamentos judiciais, seja por serviços ineficientes.
Em tempos de escassez de recursos e demandas sociais urgentes, comprometer R$ 1,4 milhão com fornecedor investigado não é apenas uma decisão administrativa é uma escolha política que exige explicações claras à população de Miranda e aos órgãos de controle do Mato Grosso do Sul.
A sociedade tem o direito de saber se a gestão municipal está protegendo o interesse público ou assumindo riscos desnecessários. Transparência, neste caso, não é opção: é obrigação.





















