Bolsonaro, inelegível, troca o inflamado escudeiro-mor Silas Malafaia, que o criticava publicamente por seu estilo “imperador”, pelo novo guru, Robson Rodovalho. A mudança ocorre enquanto o altar bolsonarista continua o mesmo, usando a fé para mascarar práticas antidemocráticas e negacionistas.
Para entender o que significam as relações de fidelidade e traição no histórico político-religioso de Jair Bolsonaro, é fundamental compreender o significado da secular exploração dos credos cristãos pelos aventureiros da vida pública e das igrejas. Enquanto as forças de extrema-direita dão voltas à procura de uma solução para sua orfandade política, porque Bolsonaro está inelegível, o ex-presidente parece estar trocando de guru pentecostal: sai um pastor, o babento Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), e entra outro, o manso, mas imprevisível, Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra.
A história talvez explique esta traição de Bolsonaro ao seu até agora mais inflamado defensor religioso. Em 525 anos de existência, o Brasil vem experimentando inúmeros processos de negação ou subversão de preceitos morais e religiosos. Com leituras pobres ou mal-intencionadas, surgem “profetas” de ocasião que se aliam a políticos, subvertendo o cristianismo ou apropriando-se criminosa e ardilosamente da fé e da religião paras buscar objetivos obscuros e nada saudáveis espiritual e eticamente.
VÍRUS ANTIDEMOCRÁTICO – Nos últimos anos, em especial a partir de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a primeira das três eleições presidenciais que havia disputado, seus opositores injetaram no organismo da vida pública brasileira um vírus antidemocrático dos mais endêmicos. A receita da contaminação foi preparada com doses abundantes de negacionismo intelectual e científico, celebração de práticas fascistas – como a tortura, a misoginia, a homofobia, a xenofobia, o racismo -, o sequestro de pautas de costumes (o combate ao aborto) e a exploração hipócrita da fé cristã e do pendor patriótico.
À frente deste processo emergiu um coronel defenestrado da carreira militar antes de entrar na política. O capitão Jair Messias Bolsonaro teve que pedir sua reforma e deixar as fileiras do Exército para não ser expulso das Forças Armadas por indisciplina e acusado de planejar atentados, porém foi absolvido pela Justiça. Ganhou notoriedade e se elegeu deputado federal. Após sete medíocres mandatos, ele soube capturar a revolta popular contra a corrupção.
Com o auxílio de núcleos direitistas do empresariado, da imprensa e da política, e a cobertura engajada de congregações evangélicas, “descobriu” como industrializar nas redes sociais o sentimento revoltoso, vitaminando-o com retóricas místicas ilustradas por citações bíblicas e apelos midiáticos em defesa da família, de Deus e da pátria. E assim liderou o movimento que derrubou a presidenta Dilma Roussef (PT) e azeitou a máquina do Judiciário para fazer da Lava Jato uma operação destinada a tirar Lula, então favorito, da corrida presidencial.
ARMAÇÃO – Operada pelo juiz Sérgio Moro, a armação funcionou e Jair Bolsonaro venceu a eleição, mas ainda precisou de um segundo turno para bater o rival petista Fernando Haddad. Fez um governo pífio, excludente e negacionista, maculado por episódios trágicos, como o desprezo debochado à vacina e às mais de 700 mil pessoas mortas na Covid-19. ou vergonhosamente ridiculos, como ao colocar o patriotismo de joelhos, prestando continência à bandeira dos EUA.
Na era bolsonarista, a Ciência, as artes, as lutas afirmativas e a defesa do meio ambiente eram tratadas como puro “mimimi”. Enquanto isto, no cercadinho do Planalto, nas entrevistas e nas “lives”, o capitão e sua turma endeusavam a tortura e os torturadores e endossavam manifestações de rua que reivindicavam o golpísmo via intervenção militar e volta do AI-5, para impedir que as eleições fortalecessem a esquerda e as agendas progressistas.
Este Brasil, desgovernado naqueles quatro anos, passou a entender melhor o que estava acontecendo na esfera de poder quando a presença do líder neopentecostalista Silas Malafaia passou a ocupar com estardalhaço os espaços da igreja, mídias sociais, impensa e palanques como escudeiro-mor de Bolsonaro. Não hesitava em atacar e contra-atacar, valendo-se de palavras venenosas, os inimigos e os críticos. Organizava as manifestações de rua e determinava quem subia ou descia do palanque.
Malafaia tornou-se assim a influência maior, o guia e o oráculo de Jair Bolsonaro, principalmente depois que vieram as tempestades processuas que o arremessaram às barras dos tribunais, com o TSE deixando-o inelegível por oito anos e o STF condenando-o a mais de 27 anos de prisão. E com a autoridade que fazia a sua defesa e o seu jogo, Malafaia também apontava os erros e repreendia filhos e aliados do ex-mandatário quando considerava que cometiam erros estratégicos. Foi assim que semeou rusgas ao abordar e esculachar as armações e entreveros envolvendo Eduardo Bolsonaro e os governadores Tarcísio de Freitas (SP) e Ronaldo Caiado (GO) na briga pelo espólio do ex-mandatário.
O ROMPIMENTO – Ou Malafaia resolveu assenhorear-se das decisões de Bolsonaro ou o ex-presidente, desacorçoado com as surras que levou nas urnas, na Justiça e nas pesquisas, perdeu a confiança que tinha no poder do pastor que lhe foi fiel de capa e espada. Não se sabe ao certo. O que parece mais visível é mais uma traição a envolver Bolsonaro e sua ex-primeira guarda evangélica, para dar as mãos a um provável novo conselheiro.
Especula-se que o rompimento entre Bolsonaro e Malafaia foi causado por ataques feitos publicamente pelo pastor da Advec ao estilo “imperador” do ex-presidente e os péssimos resultados que vem colhendo no exercício de sua já discutível lideranã. A perspectiva da mudança, contudo, não parece tão promissora. O pastor Robson Rodovalho, embora mais comedido que Malafaia, também não tem perfil e comportamento capazes de manter acesa a fleuma carregada do “jeito Bolsonaro de ser”, especialmente agora que Lula vem dominando as intenções de voto para 2026, ao passo que a direita e o bolsonarismo seguem perdendo para si mesmos.























