A política do Distrito Federal tem uma vocação peculiar para o déjà-vu. Personagens se afastam aos gritos, trocam acusações públicas, decretam fins morais e, anos depois, reaparecem de mãos dadas, como se nada tivesse acontecido. Poucos episódios ilustram tão bem esse ciclo de cinismo quanto a relação entre Celina Leão e a família Roriz.
Em agosto de 2016, da tribuna da Câmara Legislativa, Celina Leão foi implacável. Diante das denúncias feitas por Liliane Roriz, classificou a colega como “picareta” e “mau-caráter” e sentenciou: “É uma decepção que a família Roriz, que já não estava tão bem, termine a sua história no lixo.” Não foi um desabafo qualquer. Foi uma ruptura pública, ruidosa, teatral. Um enterro político anunciado em horário nobre.
Dez anos depois, em 2026, o “lixo” voltou a ser reciclável.
Jaqueline Roriz, filha primogênita de Joaquim Roriz patriarca de uma das mais longevas e controversas dinastias políticas do DF reaparece no cenário para apoiar Celina Leão na disputa pelo Governo do Distrito Federal. A mesma Jaqueline que foi chefe, madrinha e arquiteta da ascensão política de Celina. A mesma família que, segundo Celina, já não merecia sequer memória.
A ironia não é sutil. É brutal.
Celina Leão não surgiu do nada. Sua trajetória está intrinsecamente ligada ao clã Roriz. Entre 2007 e 2009, foi chefe de gabinete de Jaqueline Roriz na Câmara dos Deputados. Em 2010, dividiram palanques, estratégias e votos. À época, Celina era apresentada como “herdeira política” de Joaquim Roriz, beneficiária direta do capital eleitoral construído ao longo de décadas.
O rompimento veio em 2016, no contexto da Operação Drácon, quando gravações feitas por Liliane Roriz vieram a público, apontando um suposto esquema de corrupção no âmbito da Câmara Legislativa. Celina foi afastada por decisão judicial e reagiu atacando frontalmente a família que a havia formado politicamente. O discurso foi de indignação moral, de ruptura definitiva, de separação sem volta.
Nada mais conveniente e nada mais frágil.
Agora, em 2026, o passado incômodo é empurrado para debaixo do tapete. Jaqueline Roriz retorna como aliada. Celina aceita o apoio. Não há pedido público de desculpas, não há explicação convincente, não há mea-culpa. Há apenas o silêncio cúmplice e o cálculo eleitoral.
A mensagem que se transmite ao eleitor é clara e perturbadora: na política brasiliense, princípios têm prazo de validade. Acusações gravíssimas podem ser esquecidas. Insultos públicos podem ser engolidos. O que ontem era “lixo”, hoje é palanque.
Essa reaproximação não é sinal de amadurecimento político. É sintoma de oportunismo. Revela uma elite política que trata o eleitor como alguém sem memória, incapaz de ligar os pontos, condenado a aceitar que inimigos mortais de ontem sejam aliados estratégicos de hoje — sem qualquer explicação.
A roda gira, os sobrenomes se repetem e os discursos mudam conforme a conveniência. No Distrito Federal, não há ruptura real, apenas encenação. E, ao que tudo indica, nem o lixo político é definitivo quando ainda pode render votos.























