No dia 1º de março de 2023 o médico Ricardo Ayache foi reeleito para continuar na presidência da Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul (Cassems), plano de saúde criado há 25 anos. Nestes 16 anos e em quatro mandatos consecutivos, Ayache mantém com mãos de ferro o controle desta empresa, uma das mais poderosas do Estado, financeira e politicamente, sustentada pelas vultosas somas descontadas compulsoriamente dos salários de seus cerca de 78 mil beneficiários.
O orçamento da Caixa não é divulgado publicamente como um valor fixo, porque a instituição opera no modelo de autogestão sem fins lucrativos. Segundo os relatórios financeiros da operadora, seu volume de gestão e custeio é superior a R$ 1 bilhão em serviços de saúde e de assistência. Ao todo, são atendidos cerca de 215 mil pessoas, entre os titulares e dependentes naturais ou agregados.
A questão “segurados” é uma das causas da recente e mais aguda onda de insatisfações dos beneficiários. Eles questionam, sobretudo, duas situações: o encarecimento dos descontos compulsórios e a longevidade do mandato de Ayache, há mais de 15 anos ininterruptos depoder. A contribuição de cônjuges de servidores estaduais subiu de R$ 35,00 para R$ 450,00 mensais, um aumento assustador de 1.185%!
A operadora retirou o teto de desconto em folha, que originou até cortes de atendimentos, e é acusada de falta de transparência nas contas. Consta que o reajuste foi decidido sem a realização de assembleia geral com a categoria. Denuinciam também o surgimento de problemas com a rede credenciada, supostamente pela falta de repasses da instituição aos profissionais de saúde.
DEMANDA MAIOR – Ayache afirma que a Cassems vem fazendo de tudo para atender com qualidade uma demanda cada vez maior, investindo em hospitais e equipamentos de tecnologia avançada, e por isto é preciso assegurar a sustentabilidade financeira. Argumenta ainda que o grupo de cônjuges gerou um déficit de R$ 189 milhões e os gastos assistenciais superavam com folga a arrecadação.
Mas isto não convence os segurados, para quem nada justifica decisões arbitrárias e absurdas, como o reajuste de 1.185%! na folha dos cônjuges. Para exemplificar o tamanho do desfalque à moda Cassems: um servidor ativo ou aposentado que ganha R$ 3.000,00 mensais bruto terá uma remuneração de R$ 2.550,00 só com o desconto reajustado.
“Ao longo dos últimos três anos, a Cassems, de forma arbitrária, implementou vários outros descontos que não foram levados ao crivo dos beneficiários. Somados aos aumentos dos exames e de procedimentos, cobrando em alguns casos acima de 150% do anterior, é insustentável”, protesta Jeder Fabiano, presidente da Associação dos Beneficiários da Cassems (Abecams).
A durabilidade de Ayache no cargo também é criticada, tendo em vista o acúmulo de poder e influência que, para os críticos, contaminam o exercício da presidência. Prestígio é algo inevitável numa instituição com esse porte, tanto é que Ayache já foi candidato a senador, alcançou uma votação expressiva, entretantoo não se elegeu. Depois preferiu sair desse caminho exposto e imprevisível que é o da política para abrigar-se numa posição mais cômoda e de maior poder, dono de uma caneta que assina as decisões de um plano de saúde que trabalha com um dote na casa do bilhão anual em seus cofres.
“Corretagem”
A denúncia que tramita na Justiça de Mato Grosso do Sul envolvendo suposta cobrança milionária de corretagem em contrato ligado à Cassems começa a levantar questionamentos sobre os bastidores de negociações dentro da entidade. Segundo informações obtidas pela reportagem, um corretor teria acionado judicialmente uma empresa prestadora de serviços da Caixa de Assistência dos Servidores Públicos de Mato Grosso do Sul alegando não ter recebido a comissão prometida após intermediar a aproximação entre os diretores da empresa e a diretoria da Cassems.
De acordo com a ação, o profissional sustenta que foi responsável por apresentar as partes e viabilizar o contato que resultou no fechamento do contrato. Em troca, teria sido firmado acordo verbal ou informal prevendo pagamento de comissão milionária, valor que, segundo consta no processo, ultrapassaria a casa de R$ 1 milhão.
O caso passou a chamar atenção por envolver diretamente contratos relacionados à estrutura da Cassems, entidade que administra recursos da assistência médica de milhares de servidores públicos estaduais. A discussão judicial pode abrir novos questionamentos sobre critérios de contratação, influência de intermediários e eventual existência de práticas de “corretagem” em negociações envolvendo serviços custeados com recursos dos associados.
Caso as alegações sejam confirmadas pela Justiça, a direção da Cassems poderá ser pressionada a esclarecer qual teria sido o papel do suposto intermediador nas negociações, além de explicar se havia conhecimento institucional sobre eventual promessa de comissão para facilitar o fechamento do contrato.
A situação também pode provocar reação entre servidores associados, principalmente diante de recentes debates envolvendo reajustes, aumento de despesas e cobranças por mais transparência na gestão da Caixa.
A reportagem segue acompanhando o andamento do processo e tenta contato com as partes citadas na ação para manifestação oficial.






















