Relatório do Imasul expõe cenário crítico no entorno da Usina do Mimoso, onde nutrientes lançados no Rio Pardo favorecem a proliferação descontrolada de vegetação aquática e comprometem os usos do reservatório
O que deveria ser um patrimônio natural e uma fonte de produção, lazer e desenvolvimento para Ribas do Rio Pardo transformou-se em um preocupante retrato da degradação ambiental. O lago da Usina do Mimoso, com cerca de 1,5 mil hectares, enfrenta uma explosão de vegetação aquática associada à elevada concentração de nutrientes na água, colocando em xeque atividades que durante décadas fizeram parte da rotina da região.
O alerta consta de relatório do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), elaborado a partir de análises realizadas no Rio Pardo e no reservatório. O documento classifica o ambiente como hipereutrofizado, uma das situações mais graves de comprometimento da qualidade da água.
O cenário é especialmente preocupante porque o reservatório está cercado por propriedades rurais. Em diversos pontos, o gado tem acesso direto à água. Ou seja, aquilo que já representa um desastre ambiental pode também se transformar em problema econômico e sanitário para produtores que dependem do rio e do lago.
Uma água que deixou de ser patrimônio e virou ameaça
Segundo o relatório, a concentração de fósforo aumenta drasticamente depois do ponto de lançamento dos efluentes industriais. Nas amostras coletadas entre o local de despejo e a represa, os valores chegaram a níveis muito superiores aos encontrados nos pontos anteriores.
O fósforo é um nutriente fundamental para a proliferação de plantas aquáticas. Em excesso, porém, transforma-se em combustível para um processo de degradação que pode sufocar o ambiente, reduzir o oxigênio da água e favorecer a formação de condições extremamente prejudiciais à vida aquática.
O próprio Imasul descreve ambientes hipereutrofizados como corpos d’água significativamente afetados por matéria orgânica e nutrientes, com comprometimento acentuado de seus usos e possibilidade de florações de algas e mortandade de peixes, inclusive com consequências para atividades pecuárias nas áreas ribeirinhas.
É uma situação que não pode ser tratada como simples alteração natural do ecossistema.
O gado paga a conta da degradação
A preocupação chega diretamente às propriedades rurais.
Água de baixa qualidade pode reduzir o consumo pelos animais, prejudicar o desenvolvimento do rebanho e aumentar a exposição a problemas relacionados à contaminação por microrganismos e toxinas produzidas por determinadas algas e cianobactérias.
Em um estado cuja economia possui forte dependência da agropecuária, comprometer a qualidade da água utilizada por propriedades rurais significa atingir diretamente quem produz.
O problema, portanto, ultrapassa a discussão ambiental. É também econômico.
Agricultura também entra na zona de risco
A água do reservatório também é utilizada para atividades agrícolas. O avanço das plantas aquáticas, além de dificultar a captação, pode provocar entupimentos de equipamentos e elevar os custos de produção.
O excesso de matéria orgânica e nutrientes também pode alterar as condições químicas da água e do solo, criando problemas para áreas irrigadas.
É um efeito dominó: o lançamento de nutrientes no curso d’água favorece a proliferação de vegetação; a vegetação dificulta a captação; a qualidade da água se deteriora; produtores precisam gastar mais; e o meio ambiente continua pagando a conta.
Uma represa transformada em depósito de nutrientes
Um dos pontos mais graves levantados pelo próprio Imasul é a influência da barragem nesse processo.
O relatório destaca que a redução da velocidade da água provocada pela Usina do Mimoso altera as características físicas, químicas e biológicas do curso hídrico. O Rio Pardo, que naturalmente possui água corrente, passa a apresentar características de ambiente de água parada no reservatório.
E é justamente nesse ambiente que os nutrientes lançados na água encontram condições favoráveis para permanecer, acumular-se e alimentar a proliferação da vegetação.
A questão que fica é inevitável: se já se sabia que o curso d’água seria represado alguns quilômetros depois, os impactos cumulativos do lançamento de efluentes foram devidamente considerados na autorização do empreendimento?
É uma pergunta que precisa de respostas técnicas, públicas e transparentes.
Nem a geração de energia escapou
A degradação ambiental também já atingiu a própria finalidade da hidrelétrica.
A vegetação aquática vem provocando entupimentos e interrupções no funcionamento dos equipamentos. A usina possui capacidade de geração de aproximadamente 29 megawatts, mas precisa enfrentar os impactos provocados pelo avanço das plantas no reservatório.
Existe ainda a necessidade de impedir que a vegetação cubra parcela excessiva do lago. Para isso, uma das alternativas utilizadas envolve a liberação de água por vertedouro.
Durante períodos de estiagem, porém, a disponibilidade hídrica torna-se ainda mais sensível.
É o retrato de uma situação absurda: a água contaminada favorece a vegetação, a vegetação prejudica a geração de energia e a tentativa de controlar a vegetação pode comprometer a própria disponibilidade de água para geração.
O lazer também morreu
O lago que durante décadas serviu para pesca esportiva, passeios e competições de jet ski também perdeu espaço para a degradação.
Atividades de lazer foram suspensas diante das condições do reservatório.
Uma região que poderia explorar o turismo, a pesca e o lazer associados ao lago passa a conviver com um cenário de plantas aquáticas tomando conta da água.
O prejuízo ambiental, portanto, também se converte em prejuízo social e econômico.
Suzano afirma cumprir legislação
Procurada, a Suzano afirma que mantém compromisso com a gestão ambiental, realiza monitoramento contínuo e conduz suas atividades de acordo com a legislação e as condições estabelecidas em suas licenças ambientais.
A empresa também sustenta que apresentou ao Imasul todos os esclarecimentos técnicos solicitados e afirma que as condições observadas no reservatório decorrem de múltiplos fatores presentes na bacia hidrográfica.
A posição da empresa precisa ser considerada. Mas ela não encerra a discussão.
Se o próprio órgão ambiental identificou uma concentração elevada de fósforo e classificou o reservatório como hipereutrofizado, a sociedade tem o direito de saber qual é a origem exata de cada impacto, quais medidas serão adotadas e quem será responsabilizado caso fique comprovado dano ambiental.
Não basta cumprir a licença se o resultado é a degradação
O ponto central dessa história talvez esteja justamente aí.
Uma licença ambiental não pode ser utilizada como salvo-conduto para ignorar consequências concretas sobre um rio, uma represa e as comunidades que dependem deles.
Se a legislação não estabelece um limite específico para fósforo nos efluentes, isso não significa que o lançamento de uma quantidade elevada desse nutriente possa ser considerado ambientalmente irrelevante.
O próprio relatório do Imasul aponta a entrada de fósforo em alta concentração no corpo hídrico.
E existe um princípio básico que não pode ser esquecido: desenvolvimento econômico não pode significar destruição ambiental.
A floresta, o rio, o solo e a água não são obstáculos ao crescimento. São justamente os recursos que sustentam a produção agrícola, a pecuária, a energia e a própria vida.
O caso do Rio Pardo exige uma investigação profunda, monitoramento independente, transparência dos dados e fiscalização rigorosa.
Porque, quando um rio começa a morrer, não é apenas a natureza que perde.
Perdem o produtor rural, o pescador, o consumidor, a economia, a geração de energia, o turismo e toda a população que depende daquele patrimônio ambiental.
O desenvolvimento que deixa um rio doente, um lago tomado por vegetação e a água imprópria para seus múltiplos usos precisa ser questionado.
Não existe progresso verdadeiro quando a conta do crescimento é cobrada do meio ambiente.




















