Balanço patrimonial da Acto revela forte dependência financeira de contratos com Sesi e Senai; denúncias apontam suposto uso de empresas ligadas a dirigentes para manter contratos milionários na entidade.
A forte dependência financeira da Acto Soluções em Tecnologia em relação aos contratos firmados com o Sistema Fiems levanta novos questionamentos sobre a gestão dos recursos administrados pela entidade e o conflito de interesses envolvendo integrantes de sua alta cúpula.
Documentos contábeis da própria empresa mostram que, em 2021, 72,9% de todo o faturamento bruto da Acto teve origem em contratos celebrados com o Sesi e o Senai de Mato Grosso do Sul. Na prática, quase três de cada quatro reais que entraram no caixa da empresa vieram de entidades que integram o Sistema Fiems.
A Acto pertenceu ao atual vice-presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul, Luiz Gonzaga Crosara Júnior, considerado o principal aliado do presidente Sérgio Longen e apontado como um dos nomes cotados para sucedê-lo no comando da entidade.
Segundo o balanço patrimonial apresentado pela própria empresa em processo licitatório realizado em 2022, a Acto registrou receita bruta de R$ 3.244.395,08 em 2021. Desse montante, R$ 2.366.354,60 foram provenientes exclusivamente de contratos com o Sistema S, sendo R$ 1.710.014,60 junto ao Senai-MS e R$ 656.340,00 junto ao Sesi-MS.
Os números reforçam o rápido crescimento da empresa, fundada em 2019. Em apenas dois anos de existência, a Acto saiu de um faturamento de R$ 928 mil, em 2020, para mais de R$ 3,2 milhões em 2021, crescimento impulsionado principalmente pelos contratos obtidos junto às entidades ligadas à Fiems.
Dados dos portais da transparência do Sesi e do Senai mostram que somente entre 2021 e 2022 a empresa recebeu mais de R$ 7,69 milhões em contratos públicos do Sistema Fiems. O valor não inclui contratos firmados antes de 2021, cujas informações não estão integralmente disponíveis.
Licitações sob suspeita
Ex-funcionários da Fiems denunciaram que empresas seriam criadas especificamente para disputar licitações do Sistema S, funcionando como supostos “CNPJs de fachada” destinados a manter contratos milionários sob influência de integrantes da direção da entidade.
De acordo com os relatos, serviços de tecnologia da informação e locação de equipamentos teriam se tornado um dos principais nichos do suposto esquema.
A Acto já teria iniciado essa trajetória em sua primeira contratação. Ainda em 2019, poucos meses após ser criada, venceu uma licitação na modalidade convite na qual, segundo as denúncias, teria sido a única participante.
Nova empresa após chegada à vice-presidência
As suspeitas ganharam novo capítulo após Crosara assumir a vice-presidência da Fiems, em 2023.
Segundo denúncias encaminhadas à imprensa, a Blackbird Soluções em Tecnologia Ltda. teria sido criada poucos meses depois por dois funcionários que atuavam na Acto: Adriano Marcelo Marques Miyashiro e Ricardo Servilha Gouvea Filho.
Documentos públicos mostram que Ricardo continuava representando oficialmente a Acto em treinamentos corporativos, enquanto Adriano mantém vínculo declarado com a empresa desde 2021, ocupando cargo de gerente de suporte.
Para denunciantes, a Blackbird teria sido estruturada para continuar disputando contratos com o Sistema Fiems após Crosara passar a integrar formalmente a diretoria da entidade.
Holding mantém controle
Embora afirme ter deixado o quadro societário da Acto em novembro de 2025, Crosara continua exercendo o controle da empresa por intermédio da holding Meridian Administração e Participações Ltda., criada na mesma data.
Especialistas em governança corporativa apontam que holdings são instrumentos legais e amplamente utilizados no mercado. Contudo, em investigações envolvendo possíveis conflitos de interesse e ocultação patrimonial, esse tipo de estrutura costuma ser objeto de análise pelos órgãos de controle para verificar quem efetivamente exerce o comando das empresas.
Contradição sobre a Blackbird
Ao ser questionado sobre a Blackbird, Crosara afirmou inicialmente não possuir qualquer vínculo com os sócios da empresa.
No entanto, na mesma resposta, reconheceu que ambos prestam serviços especializados para a Acto e confirmou que a Blackbird atua como fornecedora da empresa.
Questionado se teria exercido influência na contratação da Blackbird pelo Sistema Fiems, respondeu apenas que não houve “nenhuma influência”.
Histórico de suspeitas
O Sistema Fiems administra um orçamento superior a R$ 450 milhões por ano, parte dele composta por recursos públicos e contribuições compulsórias arrecadadas junto às empresas e trabalhadores.
A gestão de Sérgio Longen já foi alvo de investigações anteriores. Em 2019, durante a Operação Fantoche, da Polícia Federal, o dirigente teve bens bloqueados, foi alvo de mandados de busca e teve o sigilo bancário quebrado por determinação da Justiça Federal.
Até o fechamento desta reportagem, a Fiems não havia respondido aos questionamentos enviados sobre as denúncias envolvendo a Acto, a Blackbird e os critérios adotados nas contratações.
Também não houve manifestação da Acto sobre as acusações de que a empresa teria sido criada com o objetivo de concentrar contratos do Sistema S. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.





















