Escândalo das emendas Pix: TCU identifica irregularidades em 82% dos repasses fiscalizados

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Maior auditoria já realizada sobre as transferências especiais identificou indícios de superfaturamento, fraudes em licitações, pagamentos sem comprovação e falhas graves na transparência; casos serão encaminhados à PF, MP e CGU.

O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou irregularidades em 82% das emendas parlamentares do tipo Pix analisadas na maior auditoria já realizada sobre essa modalidade de transferência de recursos públicos. A fiscalização apontou indícios de superfaturamento, fraude em licitações, pagamentos sem comprovação, desvio de finalidade e graves falhas na transparência e rastreabilidade da aplicação do dinheiro público.

A auditoria analisou uma amostra de 100 emendas Pix, destinadas a 74 estados e municípios, e encontrou problemas em 61 entes federativos, o equivalente a 82% do total fiscalizado.

O levantamento envolveu R$ 198,11 milhões em recursos transferidos entre 2020 e 2024. Segundo o relatório, os auditores identificaram potenciais danos ao erário de R$ 55,4 milhões, valor que poderá ser alvo de processos para ressarcimento aos cofres públicos.

Diante dos indícios de irregularidades, o TCU informou que os achados serão encaminhados à Polícia Federal (PF), ao Ministério Público e à Controladoria-Geral da União (CGU) para eventual abertura de investigações criminais e administrativas.

Contas usadas para ocultar destino do dinheiro

A principal irregularidade encontrada envolve o uso inadequado das contas bancárias destinadas às emendas Pix.

Dos R$ 55,4 milhões considerados potencialmente irregulares, R$ 26,4 milhões referem-se à utilização das chamadas “contas de passagem”, nas quais os recursos eram transferidos rapidamente para outras contas sem permitir identificar a aplicação final do dinheiro.

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Segundo os auditores, essa prática compromete diretamente a rastreabilidade dos recursos públicos.

Pagamentos sem comprovação

Outros R$ 15 milhões foram relacionados a pagamentos realizados sem documentação fiscal adequada, despesas incompatíveis com a finalidade da transferência e ausência de comprovação da execução dos serviços.

Também foram identificados pagamentos por serviços não realizados, despesas sem respaldo contratual e ausência de comprovação da quantidade efetivamente executada.

Obras inacabadas e superfaturamento

Mais R$ 14,1 milhões estão associados à não execução de obras, superfaturamento e irregularidades na execução física dos contratos.

O relatório aponta ainda:

  • fraude em licitações;
  • concorrências direcionadas;
  • restrição à competitividade;
  • contratação direta considerada irregular;
  • contratação de empresas declaradas inidôneas;
  • participação de licitante único;
  • empresas ligadas a agentes públicos;
  • mesmos representantes atuando em empresas concorrentes;
  • preços acima dos valores de mercado.

Entre os casos que chamaram atenção da equipe técnica estão contratos para festas, shows, eventos culturais e esportivos custeados com recursos provenientes das emendas Pix.

Falta de transparência

Outro problema identificado foi a ausência de informações obrigatórias no Transferegov, sistema federal responsável pelo acompanhamento das transferências voluntárias.

Segundo o TCU, muitos gestores deixaram de apresentar relatórios de gestão e documentos que permitiriam acompanhar a aplicação dos recursos.

A Corte afirma que essas falhas comprometem significativamente a transparência e o controle social das emendas parlamentares.

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Relatório será enviado ao STF

A auditoria será encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) para subsidiar a ação relatada pelo ministro Flávio Dino, que discute regras de transparência das emendas parlamentares.

Desde o final de 2024, o ministro vem determinando medidas para ampliar o controle das chamadas transferências especiais, exigindo apresentação de planos de trabalho, prestação de contas e utilização de contas específicas para movimentação dos recursos.

Segundo o TCU, parte das irregularidades decorre da ausência de regras claras quando a modalidade foi criada, em 2019, gerando um período de “vácuo legislativo” quanto aos mecanismos de fiscalização.

Parlamentares não foram identificados

O relatório não revela quais deputados e senadores destinaram as emendas analisadas.

Segundo fontes do tribunal, o objetivo da auditoria foi avaliar a gestão dos recursos públicos e apontar fragilidades nos mecanismos de controle, sem individualizar a responsabilidade dos autores das indicações parlamentares.

Próximos passos

Como resultado da fiscalização, o TCU propôs:

  • abertura de tomadas de contas especiais para recuperar prejuízos ao erário;
  • aprofundamento das investigações sobre possíveis irregularidades;
  • envio do relatório ao STF;
  • encaminhamento dos indícios à Polícia Federal, Ministério Público e CGU;
  • aperfeiçoamento do sistema Transferegov para ampliar a transparência e a rastreabilidade das emendas Pix.

No início deste mês, o Tribunal de Contas da União também lançou uma plataforma pública que permite aos cidadãos acompanhar a destinação das emendas parlamentares, identificando parlamentares, partidos e valores destinados aos estados e municípios.

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