Temporal expõe limites da infraestrutura de Campo Grande diante das mudanças climáticas

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Quando o céu escureceu subitamente em Campo Grande na manhã desta quarta-feira (5), anunciando mais um temporal com ventos fortes, ruas alagadas e mais de cem árvores caídas, a população viu-se, mais uma vez, confrontada com os limites da infraestrutura urbana diante da nova realidade climática.

As tempestades — cada vez mais frequentes e intensas — como noticiamos hoje pela manhã (6), que “Chuva até rápida, mas forte faz temporal derrubar quase 100 árvores e provocar muitos estragos em CG”, expõem não apenas os desafios meteorológicos, mas também as escolhas urbanísticas de uma cidade, que ainda aposta majoritariamente em soluções do século passado para lidar com problemas do século 21.

A lógica das grandes obras de contenção, como piscinões e bacias de drenagem, segue sendo o eixo estrutural da política urbana de Campo Grande. Exemplo disso são os três piscinões implantados na região do Nova Campo Grande/Serradinho desde 2022 e a inauguração, em julho de 2024, do reservatório nos altos da Avenida Mato Grosso.

Embora úteis na redução dos picos de cheia em áreas críticas, essas soluções têm se mostrado insuficientes quando o volume de água ultrapassa a capacidade projetada — especialmente diante de eventos extremos que já não são exceção, mas recorrência.

Curto espaço de tempo

Veja em nossa  matéria anterior, alguns casos, de como o temporal de ontem, que veio apenas três dias após outra forte chuva na Capital Sul-mato-grossense, causou alagamentos em bairros diversos — do Centro ao Aero Rancho — e interrompeu o fornecimento de energia elétrica em múltiplas regiões.

Veículos foram atingidos por árvores, e moradores compartilharam nas redes sociais o rastro de destruição. Esses episódios reforçam uma constatação que urbanistas, climatologistas e organismos internacionais vêm apontando há anos: a crise climática está em curso, e as cidades precisam mudar sua forma de lidar com a água.

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Do “fim do tubo” à cidade como esponja

A proposta das chamadas cidades esponja representa uma mudança de paradigma. Em vez de repelir a água com concreto e canalizações — uma lógica reativa e localizada —, o modelo propõe convivência inteligente com a água desde o início do ciclo urbano. A estratégia é dispersar pequenas infraestruturas verdes pela cidade: ruas permeáveis, parques alagáveis, jardins de chuva, telhados verdes, wetlands.

Cada uma delas funciona como uma pequena esponja, absorvendo e desacelerando a água da chuva antes que ela se acumule e cause enxurradas.

“Trata-se de atacar a causa do problema, não apenas seus sintomas”, destaca o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em seus relatórios mais recentes sobre adaptação urbana. A infraestrutura verde-azul não apenas ajuda a reter a água como também reduz ilhas de calor, melhora a qualidade do ar e oferece espaços de lazer. É política climática baseada em ciência — e com co-benefícios sociais, econômicos e ambientais.

Esse modelo tem ganhado corpo especialmente na China, onde dezenas de cidades aplicaram sistematicamente o conceito nos últimos dez anos. Resultados publicados pela IWA Publishing mostram que, quando bem implementadas e mantidas, essas redes descentralizadas melhoram o controle de cheias e a qualidade da água.

Campo Grande entre dois paradigmas

Em 7 de agosto de 2024, Campo Grande deu um passo importante ao integrar o primeiro programa nacional de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que inclui ações como parques lineares e jardins de chuva. É um movimento promissor, mas ainda tímido.

A cidade caminha para um modelo híbrido, em que as grandes obras cinzas continuam predominando, enquanto soluções verdes aparecem como complementares, não estruturantes.

Essa hesitação revela um dilema recorrente nas cidades brasileiras: como modernizar suas políticas urbanas diante de restrições orçamentárias, heranças estruturais e resistência política?

A experiência de São Paulo, que há décadas investe em piscinões mas começa a incorporar soluções da cidade esponja, mostra que uma transição é possível — desde que haja vontade política, planejamento técnico e envolvimento comunitário.

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Os grandes reservatórios funcionam como baldes gigantes. Mas quando chove a cântaros, não há balde que resolva. É preciso espalhar a inteligência da água pela cidade inteira.

Urbanismo e democracia: a quem serve a cidade?

A escolha entre piscinões e cidades esponja não é apenas técnica — é política. Trata-se de decidir entre modelos que concentram recursos em obras pontuais e aqueles que democratizam o acesso aos benefícios urbanos. Uma cidade que aposta em soluções verdes e integradas está, no fundo, escolhendo uma forma de urbanismo mais justa, que considera o bem-estar coletivo e a sustentabilidade futura como prioridade.

Como já advertia o filósofo francês Henri Lefebvre, autor do conceito de “direito à cidade”, a urbanização não deve se restringir à engenharia do espaço, mas incluir o direito dos cidadãos a participar da construção do ambiente urbano. Nesse sentido, adaptar a cidade ao clima não é apenas uma questão de infraestrutura — é um imperativo democrático.

O tempo mudou, a cidade precisa mudar

O caso de Campo Grande ilustra uma encruzilhada urbana global: manter o modelo de “obras de emergência” ou apostar numa cidade que absorve, aprende e convive com a água. Os temporais recentes não são acidentes, mas alertas. E como toda crise, oferecem uma oportunidade de reorientação.

Em tempos de colapso climático, como lembra o sociólogo Bruno Latour, “é a própria noção de progresso que precisa ser redesenhada, não como expansão infinita, mas como capacidade de permanecer habitável”.

É hora de decidir se queremos cidades com grandes reservatórios ou cidades que se tornem, elas mesmas, grandes instrumentos de resiliência. Porque a próxima tempestade não é uma questão de “se”, mas de “quando”.

Fonte: Semana ON

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