MATO GROSSO

“Parque dos Bilionários”: Taques pede apuração sobre licitação e relações empresariais

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O ex-governador de Mato Grosso, Pedro Taques, apresentou representação ao Ministério Público Estadual e ao Tribunal de Contas do Estado pedindo investigação sobre contratos que somam R$ 208 milhões ligados às obras do Autódromo Internacional do Parque Novo Mato Grosso, empreendimento que ficou conhecido nos bastidores políticos como “Parque dos Bilionários”.

A ofensiva jurídica mira diretamente a condução das obras executadas pela MTPAR e levanta suspeitas de direcionamento de licitação, possíveis conflitos de interesse, aditivos sucessivos e conexões societárias entre familiares de dirigentes públicos e empresários beneficiados pelos contratos.

O documento, elaborado pelo escritório AFG & Taques, sustenta que a estrutura de contratação do autódromo teria sido moldada de maneira restritiva desde a fase de licitação, favorecendo determinados grupos empresariais e reduzindo a competitividade do certame.

Custos explodem e obra pode superar R$ 1,5 bilhão

Lançado em 2021 durante a gestão do então governador Mauro Mendes, o Parque Novo Mato Grosso nasceu com previsão inicial de R$ 150 milhões e prazo de execução de dois anos.

Entretanto, segundo a representação, o empreendimento passou por sucessivas ampliações orçamentárias. A projeção saltou para R$ 255,8 milhões na Lei Orçamentária Anual de 2024 e posteriormente alcançou cerca de R$ 900 milhões em 2025, conforme dados apresentados em audiência pública na Assembleia Legislativa.

O material entregue aos órgãos de controle cita ainda levantamento do TCE-MT apontando que as obras já licitadas somam R$ 426,7 milhões, enquanto novas estruturas previstas para contratação alcançam outros R$ 550,9 milhões.

Com base no Plano Plurianual 2024-2027, a estimativa apresentada é de que o custo total do empreendimento possa ultrapassar R$ 1,5 bilhão até 2027.

Licitações sob suspeita

A representação concentra parte das suspeitas em três contratos firmados em 2025 para execução das obras do autódromo.

Entre os principais questionamentos estão:

  • desclassificação de propostas com valores menores;
  • alteração posterior das justificativas técnicas;
  • ausência de diligências para conferência de certidões;
  • possíveis restrições indevidas à competitividade.

Em um dos casos citados no documento, uma empresa que apresentou proposta cerca de R$ 3 milhões inferior teria sido eliminada inicialmente sob alegação de “carimbos ilegíveis”.

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Segundo a denúncia, após a apresentação de documentos complementares pela concorrente, a justificativa teria sido alterada para suposta ausência de autenticação, sem nova oportunidade de defesa.

Outro ponto considerado grave envolve a validação de certidões técnicas emitidas pelo CREA-MT. Conforme a representação, a comissão de licitação não teria realizado consulta direta ao sistema público do conselho profissional para verificar a autenticidade dos documentos apresentados pelas empresas participantes.

Para a defesa, a omissão reforça dúvidas sobre a regularidade do processo.

Prazos curtos na licitação e longos na execução

A peça entregue ao TCE-MT também aponta possível manipulação indireta das condições de disputa por meio dos prazos estabelecidos.

Os contratos previam inicialmente execução das obras em apenas 75 dias — condição considerada extremamente restritiva para empresas interessadas.

Após a assinatura, porém, os contratos passaram por sucessivos aditivos:

  • primeiro acréscimo de 90 dias;
  • depois mais 90 dias;
  • posteriormente mais 150 dias.

Na prática, o prazo total das obras se estendeu para cerca de 15 meses, com conclusão prevista apenas para agosto de 2026.

Segundo Taques, isso pode indicar que o prazo originalmente imposto na licitação serviu para limitar concorrentes.

“O que foi exigido como prazo restritivo na fase de disputa se torna mais flexível na execução do contrato”, argumenta a representação.

Além da ampliação temporal, os aditivos também elevaram os valores contratados em mais de R$ 10 milhões.

Rede empresarial liga familiares, mineradoras e construtora

A parte mais sensível da representação envolve o cruzamento de vínculos societários e familiares entre agentes públicos e empresários ligados às obras.

O documento cita relações envolvendo:

  • o presidente da MTPAR, Wener Klesley dos Santos;
  • seus irmãos José Aparecido dos Santos, conhecido como Cidinho Santos, e José Wagner dos Santos;
  • dirigentes da construtora MTSUL;
  • empresas mineradoras e holdings privadas.

Segundo a análise apresentada, familiares de Wener e representantes da MTSUL passaram a compartilhar participação em empresas criadas ou reorganizadas durante o período de execução das obras.

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Entre elas aparecem:

  • MID Mineração Ltda;
  • Mineração Monte Cristo;
  • VK Participações;
  • VMPF Participações;
  • OZ Mineração;
  • MDC Mineração;
  • Explora Ltda;
  • CSC Service.

A representação destaca ainda que parte dessas empresas passou a operar no mesmo endereço empresarial em Cuiabá.

Família Mauro Mendes também aparece na apuração

A investigação menciona ainda conexões envolvendo a família do ex-governador Mauro Mendes.

O material aponta relação entre a Minerbrás Mineração Ltda., criada pelo casal Mauro e Virgínia Mendes, e a Sollo Mineração S.A., administrada por Luís Antônio Taveira Mendes, filho do governador.

As empresas estariam ligadas à Fazenda Ajuricaba, em Nossa Senhora do Livramento, mesma área posteriormente relacionada à MDI, atual Mineração Monte Cristo.

Segundo a representação, inspeções realizadas em 2026 identificaram placas vinculando o local tanto à Minerbrás quanto à MDI/Monte Cristo.

Para Taques, os elementos sugerem possível conflito de interesse e justificam aprofundamento das investigações.

Acidente durante inauguração provisória agrava questionamentos

Outro episódio citado na representação envolve um acidente ocorrido em novembro de 2025 durante uma inauguração considerada “provisória” do autódromo.

Segundo o documento, parte da cobertura das arquibancadas desabou durante o evento, provocando danos materiais e deixando pessoas feridas.

A denúncia sustenta que o espaço teria sido liberado para utilização pública antes da conclusão estrutural da obra.

O episódio é usado pela defesa para reforçar suspeitas sobre falhas na execução e eventual pressão política para antecipar a entrega do empreendimento.

O que Taques pede

Nos documentos encaminhados ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas, Pedro Taques solicita:

  • abertura de investigação criminal;
  • apuração por improbidade administrativa;
  • auditoria técnica nos contratos;
  • análise dos aditivos e da execução das obras;
  • investigação sobre possíveis conflitos de interesse;
  • adoção de medidas cautelares para evitar novos prejuízos ao erário;
  • afastamento cautelar do presidente da MTPAR durante as investigações.

Até o momento, nem a MTPAR, nem o Governo de Mato Grosso, nem os empresários citados se manifestaram oficialmente sobre o teor completo da representação.

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